Fragmentos de um diário inexistente - VI

1. A corrida de bicicleta

A vida é como uma grande corrida de bicicleta - cuja meta é cumprir a lenda Pessoal.
Na largada, estamos juntos - compartilhando camaradagem e entusiasmo. Mas, à medida que a corrida se desenvolve, a alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: o cansaço, a monotonia, as dúvidas sobre a própria capacidade.
Reparamos que alguns amigos desistiram do desafio - ainda estão correndo, mas apenas por que não podem parar no meio de uma estrada; eles são numerosos, pedalam ao lado do carro de apoio, conversam entre si, e cumprem uma obrigação.
Terminamos por nos distanciar deles; e então somos obrigados a enfrentar a solidão, as surpresas com as curvas desconhecidas, os problemas com a bicicleta.
E, ao cabo de algum tempo, começamos a nos perguntar se vale a pena tanto esforço. Sim, vale a pena. É só não desistir.

2. Santo Agostinho e a lógica

Deus fala conosco através de sinais. É uma linguagem individual, que requer fé e disciplina para ser totalmente absorvida.
Santo Agostinho foi convertido desta maneira. Durante anos procurou, em várias correntes filosóficas, uma resposta para o sentido da vida. Certa tarde, no jardim de sua casa, em Milão, refletia sobre o fracasso de toda a sua busca. Neste momento, escutou uma criança na rua, cantando: "Pega e lê! Pega e lê!"
Apesar de sempre ter sido governado pela lógica, resolveu - num impulso - abrir o primeiro livro ao seu alcance. Era a Bíblia, e ele leu um trecho de São Paulo - com as respostas que procurava.
A partir daí, a lógica de Agostinho abriu espaço para que a fé também pudesse participar, e ele se transformou num dos maiores teólogos da Igreja.

3. As quatro forças

O padre Alan Jones diz que, para a construção de nossa alma, precisamos das Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.
É necessário amar, porque somos amados por Deus.
É necessária a consciência da morte, para entender bem a vida.
É necessário lutar para crescer - mas sem cair na armadilha do poder que conseguimos com isto, porque sabemos que ele não vale nada.
Finalmente, é necessário aceitar que nossa alma - embora seja eterna - está neste momento presa na teia do tempo, com suas oportunidades e limitações.
Assim, temos que agir como se o tempo existisse, fazer o possível para valorizar cada segundo.
Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, porque estão além de qualquer controle. Precisamos aceitá-las, e deixar que nos ensinem o que precisamos aprender.

4. Culpando os outros

Todos nós já escutamos nossa mãe dizendo a respeito de nós mesmos:
"meu filho fez isto porque porque perdeu a cabeça,mas,no fundo,é uma pessoa muito boa".
Uma coisa é viver culpando-se por atos impensados que nos fizeram errar; a culpa não nos leva a lugar nenhum, e pode nos tirar o estímulo de melhorar. Outra coisa, porém, é viver se perdoando por tudo que fazemos; agindo assim, nunca seremos capazes de corrigir nosso caminho.
Existe o bom senso, e devemos julgar o resultado de nossas atitudes - e não as intenções que tivemos ao realizá-las. No fundo, todo mundo é bom, mas isto não interessa.
Disse Jesus: "É pelos frutos que se conhece a árvore".
Diz um velho provérbio árabe: " Deus julga a árvore
por seus frutos, e não por suas raízes".