Fragmentos de um diário inexistente – XIII

1994, num píer em San Diego, Califórnia

Eu conversava com uma mulher da Tradição da Lua - tipo de aprendizado feminino que trabalha em harmonia com as forças da natureza.
"Quer tocar em uma gaivota?", perguntou ela,olhando as aves na amurada do píer.
Claro que sim. Tentei algumas vezes, mas sempre que me aproximava, elas voavam.
"Procure sentir amor por ela. Depois, faça este amor jorrar do seu peito como um feixe de luz, atingindo o peito da gaivota.
E se aproxime com calma".
Fiz o que ela mandou. Por duas vezes não consegui nada, mas na terceira - como se eu tivesse entrado em "transe", consegui tocar a gaivota. Repeti o "transe", com o mesmo resultado positivo.
"O amor cria pontes em lugares que parecem impossíveis", diz a minha amiga feiticeira.
Conto aqui a experiência, para quem quiser tentar.

1992, Copacabana

O cineasta Rui Guerra me conta que - certa noite - conversava com amigos numa casa no interior de Moçambique. O país estava uma guerra, de modo que faltava tudo - desde gasolina até iluminação.
Para passar o tempo, começaram a falar sobre o que gostariam de comer. Cada um foi dizendo seu prato preferido, até que chegou a vez de Rui.
"Eu gostaria comer uma maçã", disse, sabendo que era impossível encontrar frutas, por causa do racionamento.
Neste exato momento, escutaram um barulho. E uma reluzente, bela, suculenta maçã, entrou rolando na sala e parou na sua frente!
Mais tarde, Rui descobriu que uma das moças que viviam ali tinha saído para buscar frutas no mercado negro. Ao subir a escada na volta, levou um tropeção e caiu; a sacola de maçãs que havia comprado abriu-se, e uma delas rolou sala adentro.
Coincidência? Bem, isto seria uma palavra muito pobre para explicar esta história.

1994, Saäsbruck, na Alemanha

"Veja que monumento interessante - diz Robert.
O sol do final de outono começa a descer. Estamos em Saäsbruck, na Alemanha.
"Não vejo nada", respondo. "Apenas uma praça vazia".
"O monumento está debaixo de seus pés", insiste Robert.
Olho para o chão: o calçamento é feito de lajes iguais, sem nenhuma decoração especial. Não quero decepcionar meu amigo, mas não consigo ver nada demais na praça.
Robert explica:
"Chama-se O Monumento Invisível. Gravado na parte de baixo de cada uma destas pedras, existe o nome de um lugar onde judeus foram mortos. Artistas anônimos criaram esta praça durante a II Guerra, e iam acrescentando as lajes a medida em que novos locais
de extermínio eram denunciados.
“Mesmo que ninguém visse, aqui ficava o testemunho, e o futuro iria terminar descobrindo a verdade sobre o passado".