A mulher depois que ama

Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama:
fica macia que nem gata aos pés do dono.
Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
A vida não transcorre mais a contrapelo. Desliza... Ela tem vontade
de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.
Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.
É tempo do adágio, de calma e fruição.
Neste período, aliás, o tempo pára.
Em estado de graça, ela se desinteressa do calendário.
O cotidiano já não a oprime.
É a hora de uma ociosidade amorosa.
O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e, glorificada, pervaga pela casa, e o homem, animal desatento,
às vezes não se dá conta. Em geral, nunca se dá conta.
Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois
se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina. Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em
torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se
em torno de si esse balé de ternura.
Deveria o homem avisar ao escritório: - Hoje não posso ir.
Estou assistindo à reverberaçao do amor na mulher que amo.
E como isto se assemelha à floraçao rara de certas plantas!
Os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços
e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela
o que ele ajudou a deslanchar.
Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma.
Que não esteja distraído o parceiro.
Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.
É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente femea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
As outras mulheres percebem isto e a invejam.
Os machos farejam e se perturbam.
É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar.
É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade.
Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo
concreto se movimentando dentro dela.
Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de
amor, diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade. Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim.
Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se
tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro,
vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.
É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também
transmite força, alegria, energia. Também brilha, mas é diferente.
Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria
inveja do homem por ser este um animal fálico, etc.
Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres que, ao serem amadas, atingem o luminoso extase de si mesmas, como se tivessem rompido
uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos
e amorosos alaridos. É isso: quando a mulher foi amada e bem amada,
ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima
daquilo que as santas extáticas descreveram.
Uma aura de mistérios as envolve.
E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez
se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.

Affonso Romano de Sant´Anna