A princesa encantada na fonte de Al-Fahgar

No seu palácio forrado de azulejos coloridos, o velho vizir escutava o tropel dos cascos, o tinir surdo das espadas batendo nas ilhargas das armaduras, o grito incompreensível dos cavaleiros, saído das frestas abertas no ferro dos elmos.
Uma lágrima muito lenta rolou-lhe dos olhos, fechou cuidadosamente o livro carmim, com bordados de ouro, levantou-se como se carregasse um peso
de mais de mil anos, chamou os criados e ordenou-lhes que estancassem os repuxos que brotavam das fontes nos pátios lajeados e reunissem apenas os mantimentos necessários para uma viagem de três dias.
Do harém, mandou chamar as três filhas e encerrou-se com elas num aposento, exigindo que por nada os interrompessem. Usando dos seus conhecimentos de alquimia e álgebra, procedeu à sua transubstanciação.
Quem passava junto à porta, escutava uma ininterrupta e monótona litania.
Por três vezes o sol, fogoso e rubro, se derramou apaixonadamente no
regaço da terra e se levantou renovado.
Na terceira aurora enfim, a porta abriu-se e o vizir saiu sozinho, transportando nas mãos uma pequena arca ricamente lavrada de misteriosos arabescos.
Chamou o mais fiel dos servos e disse-lhe:
- Em breve estes muros serão derrubados. Os jardins devastados. Estão cada vez mais perto, os futuros senhores dos meus domínios, cobiçosos cavaleiros, em demanda das minhas riquezas. Que tudo levem e bem lhes aproveite.
Nesta arca que te confio estão três pães, os únicos bens verdadeiramente preciosos que possuo: minhas filhas, encantadas, pois não terei tempo de as levar comigo na zarpa que além me espera. Na côdea de cada um deles, gravei os seus nomes: Zoraida, Lídia e Suleima: deixo-as à tua guarda.
Aproximar-te-ás, sem que ninguém te veja, da fonte de Al-Fahgar. Retira os pães, que guardarás no teu alforje, e atirará à água a arca, em sinal de aliança.
Depois, dirige-te para tua casa, fora das muralhas e mistura-te com a população, nada dizendo do nosso segredo, aconteça o que acontecer. Terás notícias minhas em todas as noites de luar, através do espelho de água da fonte.
Dir-te-ei, assim, qual a hora certa para que, atirando lá dentro os pães,
tires as três princesas do encanto.
O servo jurou que tal seria feito e partiu.
Chegado a casa com os pães, guardou-os entre cobertas,
nada contando a sua esposa.
Passaram-se os dias e o que era esperado, aconteceu: a horda de cavaleiros,
de espadas desembainhadas, entrou aos gritos pelas portas das muralhas,
calando e derrubando à sua passagem quantos se lhe opusessem.
Calcando quanto o seu furor encontrasse, invadiram o palácio,
que foi revirado e pilhado de alto a baixo.
Depois ordenaram que lhes fosse preparado nas cozinhas um lauto banquete, com que se refizessem e, por fim dirigiram-se ao harém, onde as mulheres se haviam refugiado em pânico.
Em vão protestaram! Foram-lhes arrancados os véus e tratadas como ânforas que para acolherem os prazeres dos novos amos tivessem sido feitas.
Fora das muralhas, todas as noites de lua, o fiel detentor das princesas salvas
de tais desonras, ia espreitar à fonte Al-Fahgar as ordens esperadas.
Entreluzia no cimo das águas um rosto austero, de semblante triste, que lhe dizia dentro do seu peito não ter chegado ainda a hora do resgate.
Lembrando as lindas princesinhas, que vira crescer, o homem ia pegar os pães escondidos e, acariciando-os, dizia-lhes palavras de conforto.
Tal levantou muitas suspeitas a sua esposa que, numa das suas ausências,
foi em busca do que traria tão preocupado o seu marido, submisso aos invasores, sem uma palavra proferir, ao contrário dos outros aldeões.
Afastadas as cobertas, a mulher estupefata descobriu tão só três pães frescos!
Como estava grávida, à curiosidade juntou-se o apetite e, pegando numa faca, resolveu deliciar-se com um deles.
Mas mal o espetou, saiu dele um fio de sangue!
A mulher, afogando um grito, devolveu os três pães ao seu esconderijo
e correu a enfiar-se, tremendo, no leito.
Quando o marido chegou, não ousou dizer-lhe os borbotões
de perguntas que exigiam respostas e fingiu-se adormecida.
Com o passar do tempo, o que era novidade passou a ser costume. Alguns dos cavaleiros retomaram as suas montadas e partiram em busca de novas conquistas. Outros, gostando do que encontraram e da beleza morena das habitantes daquelas terras, com elas se entenderam e por ali ficaram.
Os afazeres foram retomados.
No palácio, outro senhor tomou posse do trono e exigiu vassalagem de quantos o rodeavam. Retomaram-se as ceifas e a cobrança de impostos.
Era a noite do solstício de verão e, no espelho de água da fonte de Al-Fahgar, o servo viu nitidamente o rosto sorridente do vizir e sentiu bem alto dentro do peito a sua voz dizendo: - É hora! Atira os três pães à fonte e
desencantarás as minhas filhas.
Correu a casa, buscou os pães escondidos e procedeu conforme o combinado.
Atirado o primeiro pão, ergueu-se lentamente da água uma bolha imensa, de verde-esmeralda. Nela, uma jovem bela lhe acenava, e se foi elevando no céu, luzindo magnífica na direção do mar, do sul, até que desapareceu.
Atirou o segundo pão e uma outra bolha prodigiosa, dourada, se ergueu. Dentro, outra jovem sorrindo subiu lentamente no espaço, tomando o mesmo rumo que a irmã.
Atirou o terceiro pão, feliz pelo êxito da sua tarefa... porém as águas borbulharam por muito tempo e por fim um grito lancinante se ouviu.
O homem, que já se sentia desafogado da sua difícil tarefa, estremeceu de pavor e angústia, perguntando que acontecera.
Uma débil voz surgiu do fundo: - Tua mulher, na sua inocência, espetou-me uma faca, julgando-me apenas um pão e cortou-me uma perna.
Não mais posso sair da fonte, pois o sangue é mais pesado que o ar e a água.
Mas em paga do teu fiel desempenho do compromisso,
toma o meu cinto nupcial, que a mim de nada servirá.
Chegado a casa, coloca-o na cintura da tua esposa
e o vosso filho nascerá rico de venturas.
À superfície da água, surgiu um cinto belíssimo, resplandecente de pedrarias que, faiscando ao luar, parecia uma miríade de estrelas que tivesse caído do céu.
- Agora vai! O teu dever está cumprido, e o meu Fado ainda mal começou! Ficarei aqui por toda a eternidade.
Quando alguém passa perto da fonte de Al-Fahgar,
escuta um inconsolável pranto.
Alguns dizem vislumbrar, nas noites aluaradas, um busto de mulher tentando erguer-se nas águas e os seus longos cabelos esparsos rebrilhando à superfície, como se refletissem a luz das estrelas...

Maria Petronilho
23.10.03