Alma de minh’alma

Oh! Alma de minha alma, quantas vezes eu te busquei! Como eu te procurei!
Por ti desci aos abismos infernais, vasculhei oceanos, campinas, prados,
veredas, escalei montanhas imensas e viajei o cosmo inteiro.
Movi céus e nuvens e, finalmente, te encontrei.
Sim, encontrei-te, na madrugada gelada, numa choça perdida nos rincões
do mundo a gemer num catre de dor, quando começavas a emitir
os primeiros vagidos e a sentir o hálito da noite fria...
Oh! Frágil flor dos meus sonhos, tu parecias esquecida da paternidade divina!
Mas bem perto de ti eu me encontrava, vitalizando-te com minhas vibrações.
Eras tu, nobre criança, nascendo para o mundo inóspito da maldade humana.
Ninguém a escutar teus clamores inocentes, mas eu te ouvi,
alma de minha alma, e aqui estou para te ofertar todo o meu amor.
Quem me fez encontrar-te?
Não sei, não mo perguntes, coração alado.
Foi a Providência Divina? Sim... que a ti me conduziu.
Séculos e séculos se passaram, desde a última vez que te avistei.
Por que te separaste de mim, adorável criatura,
encerrando-me na cela da saudade e do tormento?
Querias punir-me? Já não me bastava viver privado de tua presença?...
Que felicidade experimentei ao te ouvir liberando os primeiros vagidos e forçando teus minúsculos pulmões!
Não sabes de teu destino?
És criança, tenro rebento abandonado numa furna escura e escondida aos
olhos do mundo, mas eu te encontrei, amor de minha vida, e agora,
queira Deus eu não mais me aparte de ti.
Prometo-te, sim, prometo-te, mesmo que tais promessas te pareçam vãs,
o importante agora é redimir-me e ofertar-te minha aliança.
Venho a ti, doce fada, ninho das minhas mais caras lembranças,
esperança de meu viver e luz da minha redenção.
Perdoa-me, terno e adorável ser, pois, sem ti,
tudo é desolação, dor e saudade.
Hei de redimir-me dos tristes ais que sofreste por mim!
Sou teu destino e o alento de tua vida,
juro ser teu para sempre, meu anjo adorado!

Nicolau Nikolai Sumarokov