Amormetro

É que o outro nunca saberá o quanto foi amado por nós.
O carinho explícito, a dedicação, as palavras,
tudo pode ser uma encenação.
É que existe tanto amor falsificado por aí, tanto amor com
segundas intenções e interesses escusos que hoje em dia nunca
sabemos se somos amados e o quanto somos.
Adoraria que existisse um aparelho chamado "amormetro" que pudesse medir com precisão o nível de amor que damos e recebemos.
Só assim teríamos como saber e provar a quantidade de amor
que inspiramos e sentimos.
Eu, por exemplo, queria muito poder mostrar para certas pessoas que passaram pela minha vida que eu não brinquei de amar, que elas brincaram sozinhas e que eu não as usei como fui usada por elas.
Ando percebendo que cada vez mais o ser humano está limitado
em relação a sentimentos e uma distorção de caráter se amplia
dentro dos corações.
Vejo pessoas se fechando cada vez mais por isso,
se entregando a solidão por total opção.
Amar por quê? Pra quê?
Acho isso de uma tristeza sem parâmetros, pessoas evitarem amar
por absoluta desilusão, por descrença, por insegurança.
Quem começou com essa história de falsificar o amor,
de ferir o coração de quem a ama, de trapacear em cima
de um sentimento tão nobre e essencial?
Quem foi eu não sei, mas que virou moda eu tenho certeza que sim.
É por isso que me considero tão antiquada, não aderi a essa moda,
nem sei como poderia usufruir dela e principalmente
não desejo viver dessa maneira.
Se eu fizesse isso teria vergonha de mim, mas vergonha é coisa fora de moda, vergonha tornou-se descartável, é um sentimento que está morrendo dia a dia.
Bem que se quis preservar o amor, bem que se tentou, os poetas, por exemplo, insistem em fazer isso todos os dias, mas até eles andam perdendo as forças e o seu maior tesouro - a inspiração.
Amor virou artigo de luxo, portanto, muito difícil de encontrar,
além do mais quando se encontra o preço é tão exorbitante
que poucos, muito poucos podem adquirí-lo.
É, paga-se caro por um amor de primeira categoria, é preciso ser possuidor de uma grande fortuna composta de dignidade,
caráter, sensibilidade, honestidade e doação.
As pessoas empobreceram por isso ninguém mais consegue
viver um grande amor.
Os relacionamentos duradouros desapareceram,
as entregas totais e irrestritas, também.
A desconfiança agora é que controla o coração de muitos
e a falsidade o coração de tantos outros.
Amor já não encontra mais rima, já não grita aos olhos de ninguém,
já não é forte o suficiente para suportar dificuldades.
Almas gêmeas?
Elas deixaram de existir ou nunca mais se encontraram.
Talvez agora elas estejam vagando solitárias por aí.
Amor se tornou mais que abstrato, agora ele é invisível
não só para os olhos como também para o coração.

Silvana Duboc