Ando exausta

Sinto dentro de mim que quero paz. Paz das plantas.
Paz de criança dormindo.
Quero um homem que vele meu sono, tire carinhosamente os meus sapatos, me leve mansamente para a cama e me cubra com o mesmo carinho de uma mãe com seu bebê. Quero que ele traga chá quente para me aquecer por dentro e ache graça no meu nada fazer.
Quero um quarto macio e cor-de-rosa, com cortinas românticas
nas janelas, para filtrar a luz forte e penetrante do dia.
Quero que ele me dê banho de banheira e não puxe pela
minha cabeça. Nada de conversas intelectuais.
Na realidade, não quero nem que ele me diga
palavras mansas de amor apaixonado.
Não quero ser desejada fisicamente.
Quero apenas a presença dele, discreta e silenciosa.
Que fique ali, fazendo as suas coisas e contemplando,
com olhar doce e sem súplica, a minha quietude.
Quero ruminar como boi manso olhando a imensidão
do pasto. Assistir televisão sem som, como se assiste
às labaredas de uma lareira.
Quero o amor do meu homem, seu sexo em ereção por mim,
mas sem que me solicite nada. Que seu coração emocionado e
seu sexo desejante não me invadam o corpo ou me penetrem a alma. Eu o quero disponível, ali, para a hora que eu o desejar.
Quero que não se magoe por nem sempre eu estar disponível para ele. Que seu sexo pertença ao meu corpo como um dedo de minha mão, mas que não me pressione.
Quero que ele sinta o meu amor e o meu desejo por ele.
Quero ser vista como uma princesa, e que seus olhos fiquem mansamente embevecidos por me ver assim.
Ah, se ele pudesse me entender nesse meu terno deleite!
Ah, se ele pudesse ser um manso regaço para a minha exaustão! Estou exausta até de amar e ser amada, de desejar e ser desejada. Que bom se ele pudesse viajar comigo em busca de paz!
Sei que estou pedindo muito, mas não quero isso para sempre.
É só por algum tempo, como alguém que precisa dormir para despertar com novas energias. Preciso passar só uns dias nos jardins do Éden, comendo os doces frutos do paraíso. Quero uma pausa nos orgasmos do corpo e dos sentimentos. Quero repouso no êxtase.
Ele nem imagina como seria maravilhoso se pudesse me acompanhar nessa viagem, mansamente e cheio de prazer.
Ele me veria repousada e saciada da minha fome de paz.
E presenciaria o meu amanhecer, cheio de genuína gratidão e encantamento por ele.
Desse sono reparador eu sairia restaurada. Ele então veria uma dança espanhola possuir meu corpo, castanholas marcarem a minha cadência, a potranca árabe que trago em mim entrar no cio.
Eu voltaria, de corpo e alma, para o lindo universo da paixão.
Meus sentimentos e desejos entrariam em erupção. Minha cabeça, num cio intelectual. Eu recuperaria todo o meu gosto pelos prazeres masculinos - até ao futebol eu iria. Mas que ele vivesse, pelo menos durante um tempo, os meus prazeres femininos. Tão femininos
que nem são próprios da mulher adulta. Um prazer pré-sexual, pré-emocional, pré-amoroso. A sensação de ser criança pequena aconchegada nos braços tranqüilos da mãe.
Todo um clima de bonança tão necessário a quem
navegou nas tempestades.
Ah, se o homem soubesse disso, quanto prazer ele não seria capaz de extrair de sua mulher! Quantas noites de amantes enlouquecidos ele não viveria! Se o homem pudesse arejar o seu vigor masculino, deixando penetrar em suas brechas as brisas femininas...
Que sua renúncia transitória à busca aflita de encontros
pudesse deixar nele a certeza de que encontros rejuvenescidos
não tardariam a vir.
Estou convencida de que muita mulher jamais se entregou a seu parceiro porque ele jamais se entregou a ela.
O masculino não soube enxergar o feminino nas suas formas
mais extremas, de puro deleite de sensações plácidas.
Desgraçadamente, essa necessidade feminina é vivida pelo
homem como rejeição, frigidez, recusa e desamor.
Por isso, tantos garanhões de raça não conseguem despertar a potranca puro-sangue que sua mulher recolhe nas entranhas.

Carta de uma mulher ao Dr. Eduardo Mascarenhas,
in "A Costela de Adão"