Aos que não oram

Há dois tipos de pessoas que não oram:
As que não sabem e as que não querem.
Esta crônica é endereçada de preferência às primeiras, mas sem a exclusão das demais, porque tanto umas como outras estão desligadas das forças superiores que sustentam o Universo. Falando ao que não aprenderam
a orar, é de esperar que também alcancemos os indiferentes.
Bem pensado, aliás, creio que poderíamos colocar mais um grupo:
o daqueles que oram mecanicamente, recitando fórmulas que a repetição infindável esvaziou de todo o seu conteúdo inicial.
Muitos ainda não descobriram que o valor e a eficácia da
prece não estão na quantidade de fórmulas que recitamos
e sim no que sente o espírito ao pronunciá-las.
Por isso, aqueles a quem não mais satisfaz a prece repetitiva, ficam
sem saber o que dizer a Deus. Sim, porque a prece é uma conversa
com Deus, um diálogo entre a criatura e o seu Criador.
De modo geral, a prece representa um pedido. Pouco temos nós,
pobres seres imperfeitos, a oferecer a Deus;
é mais certo que tenhamos muito a pedir. A própria palavra prece já revela essa condição, pois deriva da palavra latina prex, isto é, súplica.
A Enciclopédia Britânica, que andei consultando para esta conversa, é muito erudita e técnica no exame da prece. Divide-a em três tipos, segundo seja dirigida a um ser superior àquele que ora, a um ser do mesmo nível ou a um ser inferior, ou que pelo menos o suplicante assim julgue. A Deus se pede com humildade e confiança; a um santo com o qual se tenham tomado certas liberdades, muita gente propõe uma barganha, isto é, uma promessa, mais ou menos nos seguintes termos: “Você me dá isto que eu te prometo fazer aquiloutro”. O terceiro tipo: - ainda segundo a Britânica – é uma verdadeira ameaça: “Você me arranja isto, ou te quebro a cara”. Não é preciso dizer que estes dois últimos tipos de “prece” são formalmente condenados pela Doutrina de Allan Kardec. Também não adotamos preces decoradas, repetitivas.
Se a prece é um entendimento entre o homem e Deus, ou entre o homem e um Espírito Superior, em quem confia, basta “abrir o coração”, como se diz, e deixá-lo falar, numa conversa franca, leal, respeitosa e recolhida.
Não é preciso procurar palavras difíceis, expressões rebuscadas que quase sempre são insinceras.
Não se envergonhe da sua linguagem com Deus;
Ele a entenderá perfeitamente e, quanto mais singela
e humilde, melhor, porque é o sentimento que a impulsiona que vale, não as “palavras bonitas”.
Jesus não se preocupou em ensinar preces específicas:
a única que nos deixou em palavras suas foi a chamada “oração dominical”, ou melhor, o “Pai Nosso”.
Quanto ao mais, que disse? Que quando tivéssemos de orar, entrássemos para o nosso quarto e, em segredo, nos dirigíssemos a Deus.
Disse mais: que valia a prece do publicano sincero
e humilde e de nada servia a oração pomposa
do fariseu hipócrita.
Declarou também que precisávamos bater para que se abrissem para nós as portas. “Pedi e dar-se-vos-á”.
No entanto, a doutrina de Allan Kardec não é partidária de preces pré-fabricadas. Mesmo os espíritos que transmitiram seus ensinos a ele raramente ditaram preces. Sempre insistiram em que deixássemos correr livremente e com o máximo respeito, humildade e confiança o nosso pensamento elevado a Deus.
Se conseguimos ou não o que pedimos, é outra coisa. Nem sempre aquilo que pedimos é o que mais nos convém. Segundo o Cristo, Deus não nos dará pedra se pedirmos pão, mas como pai prudente, “recusa ao filho o que seja contrário ao interesse deste” ( Kardec).
De todas as preces que conheço, a minha predileta é assinada por um Espírito chamado Agar e foi psicografada pelo querido amigo Chico Xavier. Diz o seguinte: “Pai de Infinita Bondade, sustenta-nos o coração no caminho que nos assinalaste. Infunde-nos o desejo de ajudar àqueles que nos cercam, dando-lhes das migalhas que possuímos para que a felicidade se multiplique entre nós.
Dá-nos a força de lutar pela nossa própria regeneração, nos círculos
de trabalho em que fomos situados, por Teus sábios desígnios.
Auxilia-nos a conter nossas próprias fraquezas, para que não venhamos a cair nas trevas, vitimados pela violência. Pai, não deixes que a alegria nos enfraqueça e nem permitas que a dor nos sufoque. Ensina-nos a reconhecer Tua bondade em todos os acontecimentos e coisas.
Nos dias de aflição, faze-nos contemplar a Tua luz, através de nossas lágrimas, e nas horas de reconforto auxilia-nos a estender Tuas bênçãos com os nossos semelhantes. Dá-nos conformação no sofrimento, paciência no trabalho e socorro nas tarefas difíceis. Concede-nos, sobretudo, a graça de compreender a Tua vontade seja como for, onde estivermos, a fim de que saibamos servir em Teu nome e para que sejamos filhos dignos de Teu infinito amor.
Assim seja!”

Luciano dos Anjos e Hermínio Corrêa de Miranda
in: De Kennedy ao Homem Artificial