As asas das letras

Dentro daquela mochila em suas costas, poderia ter muito treco diferente, mas não. Ali, ele guardava suas asas. Normalmente andava a pé pelas matas do interior.
Subia e descia montanhas, descobria cavernas, explorava florestas. As asas eram só para burilar o mundo. Lá do alto, ele talhava, letra por letra, a esperança. Escrevia mensagens que amanheciam pregadas no céu. Gente havia que, ao acordar, corria lá fora para olhar a mensagem do dia. Igual como consultar horóscopo.
As janelas eram cedo escancaradas e muitos sorrisos apareciam em caras
amanhecidas e inchadas. Olhava-se para o céu ainda com os olhos remelentos
e espremidos por conta da claridade e os contornos brancos em forma de pedaços de nuvens lá estavam a falarem coisas bonitas, estímulos, conselhos, lembranças, ânimos infindos para o povo lá debaixo. Ele não era sagrado. Era apenas alguém que havia descoberto a utilidade certa para as asas.
Como ele não queria se sentir um inventor de vôos, preferiu não revelar a sua descoberta. Para muitos ele era um fantasma que escrevia no céu coisas boas de se ler.
Quando amanhecia, ele abria sua mochila, retirava de lá de dentro seu par de asas e subia. Assim o vento não desmanchava rapidamente suas mensagens e o povo,
ao acordar, logo cedo, teria o que ler.
Tinha diversos apelidos: Mão de anjo, Vôo-esperto, Pé de letra, Homem-pássaro, Poeta-voador... Em cada lugar uma alcunha diferente. Ele não ligava. Na verdade, ninguém sabia quem era ele, pois terminada a “escrevinhação”, descia em campo
deserto para ninguém saber sua identidade.
Então, guardava tudo bem direitinho na mochila surrada.
O que mais interessava era o estímulo doado. Podia ver lá de cima os acenos e os gritos de bom-dia! Sentia-se muito satisfeito ao ver o povo acordar bem-humorado!
Um dia, um jornal da cidade grande anunciou a existência do homem que voava e escrevia pelos céus do interior. Veio gente de longe para ver. Uns passaram a noite mirando em seus binóculos e lunetas, procurando nas estrelas, nas nuvens, por todo
o espaço. Outros carregavam garruchas para acertar tiros no tal extraterrestre.
Havia criança com estilingue na mão e outras com zarabatanas envenenadas.
O povo simples, acostumado com o feito, foi para as ruas em passeata dizer que
o homem lá de cima não era nenhum bandido, nem nada.
Mas o mais forte sempre vence e ninguém queria saber de nada.
Queriam a cabeça do homem e a fórmula da sua invenção. Onde já se viu?
Uma invenção dessas só podia ser coisa do primeiro mundo. Do inventor do computador, de um árabe qualquer ou de um chinês.
O dia amanheceu igual. Era Primavera. Pólen no ar.
Em todas as casas a fumaça do fogão de lenha saía pela chaminé.
Cheiro de café coado no pano de saco. Pãozinho quente com manteiga. A criançada se arrumando para a escola e as janelas se abrindo para o sol. Pela clarabóia, muitos já liam os dizeres do céu e os sorrisos se alargavam em bocas de todo tamanho. As cabeças assentiam. Uns cumprimentavam os outros, numa eterna conformação de vida com muita alegria.
Mas um grande estrondo se ouviu e, rodando feito pião,
a caça caiu lá cima, estalando-se inteira no chão.
Era um homem como outro qualquer, sem asas, sem nada que justificasse aquela agressão. Um homem e sua mochila surrada. Naquela correria de descobrir-se o tal invento, alguém abriu sua mochila e de dentro retirou um cotoco de sabonete, uma escova de dente, um pente, três cuecas, dois pares de meias furadas, uma camisa velha desbotada, uma pena dourada e... um livro de poesia. Mais nada...

Cláudia Villela de Andrade