Baratas & Fofocas

Com esta confissão, dou as mais poderosas armas para os meus gratuitos desafetos: quem quiser me apavorar, pode usar baratas ou fofocas.
Tenho um horror tamanho a baratas que, não importa onde eu esteja,
simplesmente perco a compostura e dou vexame.
Este inseto horripilante vem das profundezas da imundície, seu habitat.
Quando no chão, ela corre de forma desordenada e enlouquecida,
quase sempre em nossa direção.
Não bastasse isto, resolve voar e dar razantes, grudando em nossas roupas,
em cima das nossas camas ou na tela do nosso computador.
Some e aparece de súbito, com aquelas antenas malditas e com aquele cheiro asqueroso que impregna os locais por onde passa.
O que me conforta é saber que não sou só eu a ter este pavor:
certa feita, o entregador de refrigerantes descarregava um pesado engradado de guaranás, no armazém de meu pai, quando uma barata gigantesca desceu por seu braço. Ele não teve dúvidas: atirou o engradado a metros de distância, para defender-se do inseto asqueroso.
Mas o que baratas têm a ver com fofocas?
Muitas coisas, creio eu.
Ambas são imprevisíveis e sorrateiras. Ambas procedem da imundície.
A barata vem dos esgotos reais; a fofoca vem dos esgotos mentais.
Como nunca sabemos de que lado elas vêm, nem a que horas vão dar o ar da (des)graça, ficamos completamente desarmadas e desprotegidas.
Ambas tem o mesmo "modus operandi" desordenado, invasivo e perturbador; provocam sensações de asco, repulsa e palpitações.
Ambas exalam um mau cheiro peculiar e insuportável.
Ambas conseguem fazer com que percamos a compostura
e a elegância, além de tirar-nos do nosso eixo.
Da barata podemos nos defender com algumas esguichadas de inseticida; a fofoca é tão resistente que ainda não inventaram um inseticida à altura de seus estragos.
A barata deve ter lá a sua função no ecossistema.
A fofoca é perniciosa, não tem nenhuma função necessária em sistema algum, é oriunda de esgotos mentais doentios, causa avarias irreversíveis e, o que é pior, não temos como nos defender visto que, quando percebemos sinais do seu cheiro asqueroso e repugnante, ela já seguiu além, levando consigo o bom nome de alguém, a honra e a dignidade de outrém, fazendo da miséria alheia,
alvo de maledicência pura e gratuita.

Fátima Irene Pinto