Benção das lágrimas

Bendita a lágrima em que se cristaliza
o acervo atroz de nossas dores e se dilui
o negro fel de nossas mágoas.
Bendita a lágrima a cuja tona flutuam
farrapos sombrios de sonhos dourados
e em cujo fundo vagueiam espectros
tristonhos de esperanças mortas...
Bendita a lágrima dos que carpem
a desdita de nascerem sem teto
e choram a desgraça de viverem sem pão.
Bendita a lágrima dos que jamais
conheceram um afeto de mãe
e nunca provaram um carinho de esposa.
Bendita a lágrima, desafogo amigo dos que
são sós e consolo ardente dos que são tristes.
Bendita a lágrima dos que põem sobre os ombros a cruz de seu próximo e o ajudam
a escalar o calvário da existência.
Bendita a lágrima dos que buscam, errantes,
o calor de um afeto e somente
encontram o frio do desprezo.
Bendita a lágrima dos que sofrem injustiças pelos ideais que defendem e só colhem ingratidões pelo bem que semeiam.
Bendita a lágrima que erige no cérebro
um templo à Verdade e converte
o coração num sacrário de Amor.
Bendita a lágrima que aflora, escaldante,
nas noites do sofrimento e esplende
como um sol nas manhãs da redenção.
Bendita, enfim, a lágrima,
gota de luz das auroras celestes
e síntese terrena do orvalho divino.

Rubens C. Romanelli