Boca do Inferno

Erguia-se no bordo da escarpa, rente ao mar,
um enorme castelo, altivo e sombrio.
Nele, habitava, solitário, um bruxo.
Um dia porém, achou ser tempo de temperar com mais do que sal a sua vida.
Consultou a sua lâmina de cristal de rocha e ordenou-lhe que lhe mostrasse a mais bela donzela do reino, assim como o lugar onde pudesse encontrá-la.
Reuniu o séquito e cavalgou dias a fio.
Levava riquezas nunca antes vistas, com que a seus pais a comprou.
Deslumbrado pela sua beleza, mandou que se velasse num véu preto
e assim a levou de volta, a caminho da desventura.
Enquanto bem desfrutava da sua mal empregada formosura, mandou erguer alta torre, de uma só porta, escadaria estreita a toda a volta, e reservou-lhe aposentos no extremo da inusitada cornucópia.
Mandou vir de longe um criado que jamais a vira e, sob ameaça de morte certa caso a utilizasse, confiou-lhe uma das chaves, que guardava dependuradas de uma corrente à cintura. Guardou a mulher como se guardam as coisas que se amam e detestam ao mesmo tempo,
pois tanto o deslumbrava quanto temor lhe infundia.
Frente ao mar, o tempo passava, cronometrados os dias pelas marés,
as semanas pela sucessão dos dias e das noites, os meses pelas luas.
Tão só se sentia o guardião como a cativa do seu senhor.
O horizonte de ambos era o mar, eternamente sempre outro e o mesmo.
A música que a ambos chegava era a dos pensamentos, a do marulhar
revolto ou terno das ondas, o sibilo do vento por entre as rochas.
Assim passava o tempo e não passava, porque o tempo para ser tempo
tem por referência a vida, de que ali só se sentia a ausência.
Mas um dia o ócio provocou no carcereiro uma curiosidade inadiável.
Deu por si a pensar obsessivamente que mulher seria aquela q
ue merecia tão triste sorte.
Pouco depois, descerrou a fechadura, com a chave
confiada mas jamais tirada da cinta.
A porta rangeu de ferrugem, ele apoiou sobre os gonzos todo
o seu peso e, aos poucos, sentiu-a cedendo.
Enquanto ia subindo a escada de caracol que levava a câmara da cativa,
mil pensamentos se lhe entrecruzavam no cérebro:
O que iria encontrar? Seria bonita ou horrorosa? Aleijada?
Muda ou doente? E se estivesse morta?
Calou todas as vozes de inquietação que o assediavam
e subiu, subiu, subiu sem pensar em mais nada.
Frente à porta da câmara, parou para se acalmar e tomar coragem.
Quando conseguiu dominar a tremura das pernas
e das mãos, empurrou a porta.
O sol, que entrava por uma das ogivas da torre,
bateu-lhe nos olhos e cegou-o por momentos.
Pouco a pouco retomou a visão, deparando-se com a silhueta de uma
jovem dama, meio voltada, silenciosa, que em nenhuma das suas
conjecturas, lograra imaginar.
Ela olhava-o, interrogativa, mas como ele de repente sentisse esquecidas
todas as palavras, acabou ela por perguntar: - Quem és tu, cavaleiro
e porque vens perturbar a minha solidão?
E o homem, quando achou de novo a voz, respondeu finalmente:
- Sou o vosso guardião, senhora!
- O meu guardião? Guardião de quê? Desta solidão sem nome e sem razão? Vê como se consomem os meus dias,
sem prazer, sem ilusão! ... Ao menos tu!
- Eu, senhora? Eu estou ali em baixo tão só como vós, e a guardar...
a guardar o quê? Para quê?! Talvez que a partir de hoje possamos partilhar, senão redimir, as nossas horas perdidas neste ermo. Ordenai, senhora, farei o que quiserdes. Levar-vos-ei aonde desejardes!
Mas a nenhum lugar quisera ir a senhora, sedenta de presença humana, e ficaram a conversar por horas esquecidas... Da cumplicidade e da troca
de segredos e solidões, uma louca paixão nasceu.
O tempo que era tão lento cristalizou-se naquele instante.
E o instante fizeram eterno, esquecendo o lugar e o perigo,
tão só um ao outro se entregando, em delícias se esquecendo,
nada mais que um ao outro querendo.
O exterior esvaíra-se, pois não o sentiam nem lembravam.
Mas, numa noite, acordaram apavorados num mesmo pesadelo,
em quem uma onda imensa de repente os engolia.
Aflitos, desceram as escadarias correndo.
Montaram o cavalo branco que por ali deambulava peado e acudiu de pronto à voz do dono. Partiram a toda a brida sobre os rochedos fronteiros ao mar.
No paço, o feiticeiro olhou a sua lâmina de cristal e, louco de fúria e de ciúme, chamou a si todos os dons mágicos que possuía, ordenou que num repente se abrisse a terra e transformou a noite num cataclismo medonho; rochas deslizaram sobre rochas e um abismo sem fundo abriu-se:
cavalo e cavaleiros despenharam-se e foram engolidos para sempre.
Assim que os dois amantes desapareceram no redemoinhar infernal, acalmou a tempestade e o mar voltou a ficar manso como se nada houvera acontecido. O buraco nos rochedos, porém, nunca mais se fechou, como se essa ferida
da natureza quisesse perpetuar a história.
Mas muitas vezes volta o vento e a fúria do mar retorna, tal como na noite em que a cativa e o guardião da torre desapareceram.

Maria Petronilho
Lisboa, 12.10.03