Bonecos infláveis

Por mais que a gente faça
parece que deixou de fazer,
por mais que a gente diga
parece que não conseguiu dizer,
por mais que a gente queira,
parece que não soube querer.
Por mais que a gente se dê
parece que não se deu,
por mais que a gente tenha feito por merecer
parece que não foi assim que aconteceu.
E assim vão morrendo os relacionamentos,
vão se enterrando os sentimentos
e assim vão surgindo os fúteis envolvimentos.
Se você não me dá valor eu também não te dou,
se você me quer apenas por uma noite,
é assim que eu também vou te querer,
se você não pensa em se envolver,
apenas superficialmente vai me conhecer.
Que não haja intimidade, muito menos cumplicidade,
seremos dois corpos somente em busca de prazer
e ele pode nem acontecer.
Poderemos ser dois corpos que, embora juntos,
jamais vão se reconhecer.
E quando o dia clarear
nos olharemos e diremos em tom vulgar:
Valeu, qualquer hora eu volto a te procurar...
E eu que pensava que quando
um corpo a outro se entregava
entre eles naturalmente se instalava
uma intimidade indiscutível,
mas hoje intimidade é coisa impossível.
Sem palavras, sem conversas,
agora só existe pressa
de correr pra não chegar,
nunca, a nenhum lugar.
Se você me quer assim
que leve o mínimo de mim,
o restante eu vou guardando pra terra comer
porque a impressão que eu tenho
é que ninguém mais quer se conhecer.
Viramos todos bonecos infláveis
sempre a postos e incansáveis.
Que droga de vida é essa que temos levado,
jogados pra todo lado
sem a menor distinção.
Tanto faz se você tem coração,
tanto faz se você é emocionante,
especial, interessante,
tanto faz se você é inteligente,
especial e envolvente,
aliás, tanto faz se você é gente.
Não passamos de órgãos sexuais
sem nenhuma identidade
e em plena atividade.
Somos todos um pedaço de carne
que aos poucos vai apodrecer,
somos seres humanos e vamos morrer
e sabe como vai ser?
Sozinhos e abandonados,
esquecidos e desamparados.
Mas se é assim que tem que ser
nós nos usamos por uma noite
e depois podemos nos esquecer.
...e pode ir pois atrás de você
eu não pretendo correr
e você mergulha na sua solidão
que eu cuido do meu coração
e você nem sabe se foi bom
e eu não me lembro do tom
que emitia a sua voz
e nós esquecemos que existiu "nós".
E tantos "nós" vagam por aí,
"nós" que nunca mais vão se encontrar,
enquanto isso eu fico aqui
esperando um "você" chegar.

Silvana Duboc