Chevettão

Ele era muito cafona, brega demais, mas com uma cara de cafa que
Deus me livre! Ela fingiu que num tava nem aí pros olhares
à la Magal dele, mas entendeu o porquê da Ana Maria Braga
ter se casado com o tal segurança.
Lembrou do Osvaldinho, seu maridão, finíssimo (em tudo), educadíssimo e ainda por cima chamava-a de mãe que nem os filhos.
- Mãe hoje tá linda né crianças?
Mãinha hoje caprichou na lasanha.
Não tinha analista, encontro de casais,
férias no Caribe, que fizesse a crise passar.
Acostumou-se a chamá-lo de painho e pronto.
Olhou desta vez só pras mãos do bronco
que consertava a máquina de lavar.
Dedo de delator! Dedo-duro.
Imaginou o resto e perguntou se ele consertava geladeira, batedeira, enceradeira, frigideira. Ele afirmou que já tinha consertado até a Feiticeira. Combinou então os consertos pra todas às quartas-feiras às 10 da matina, hora que painho já tinha ido levar os filhotes pra escola e tinha reunião no sindicato dos catadores de ostra.
Os consertos levaram três meses, tempo dela ter alta na terapia e ganhar o certificado de esposa perfeita nos encontros de casais.
Atualmente o par não tem mais crise. Ele nem liga pra nova mania dela de chamar pintor, encanador, eletricista e similares, sempre às quartas
por volta das dez da matina.

Ela passou a olhar todos os Chevettes do planeta.

Rosa Pena