Como escapar

"Querido Mr. Miles:
Vou poupá-lo dos detalhes, mas tenho pouco mais de 30 anos,
acabo de sair de uma relação longa, mas sem projetos, e estou disposta a começar a vida em algum outro lugar do mundo.
Adoro viajar, mas não gosto de locais quentes e tenho medo ficar deprimida em invernos longos demais. O senhor tem alguma sugestão de lugar onde eu pudesse voltar a buscar a felicidade?"
Jana Gomes Meirelles
.

"Querida Jana:
Sou melhor como contador de histórias de viagem do que,
eu presumo, como consultor sentimental. Mas sei, porque aprendi com o grande psicanalista e velejador Nelson Dienstag, que o caminho que você pretende trilhar raramente conduz a algum
lugar específico ou a uma solução para suas angústias.
Você pode até esquecer as malas em casa e viajar apenas com a roupa do corpo, para evitar carregar consigo qualquer lembrança física da pessoa de cujas memórias quer (quer mesmo?) escapar. Você pode, é claro, escolher mudar-se para o outro lado do mundo, onde sempre haverá uma cidade bonita na latitude que condiz
com suas aspirações climáticas.
Mas há um item que embarcará na sua companhia, clandestino e indesejado. Ele estará, quiçá, em sua nécessaire, no bolso de seu
jeans ou no forro de sua jaqueta, como um intruso indesejado.
Você o verá nos lagos aos pés do Himalaia, nas muitas igrejas da Morávia, nos aromas da Provença ou nos girassóis da Andaluzia.
Trata-se da dor que a levou a viajar. Desculpe, querida senhora,
mas ainda que sair mundo afora seja uma experiência enriquecedora, as grandes decepções sempre viajam conosco. Sim, querida, todas as coisas ganham a dimensão adequada quando estamos longe de nossas referências mais próximas. Eis por que os problemas comunzinhos do dia a dia, pequenas cizânias de trabalho e frustrações do cotidiano desaparecem num passe de mágica
quando saímos de férias para recuperar energias.
Todavia, das dores da alma não se pode simplesmente escapar
pela porta de um aeroporto. Caso contrário, a indústria química
não ganharia rios de dinheiro criando pílulas que prometem a felicidade e, infelizmente, raramente a entregam.
Se eu fosse você, querida Jana, não carregaria a sua dor para,
sobre ela, construir uma nova vida. Acho, até, que você pode
levá-la para passear, para testar se a beleza de novas descobertas
não a torna menos desagradável, ainda que seja assim
apenas por alguns momentos.
Melhor ainda seria se você viajasse com uma pessoa amiga,
para trocar impressões, fotos e sorrisos eventuais.
O luto por alguém que deixou a sua vida (oh, Deus, estou me tornando piegas!), tem o mesmo comportamento de um viajante.
Deixa marcas, evoca lembranças...
Mas é sempre passageiro".


Mr. Miles
O Estado de São Paulo, 27/07/2010