Criando um monstro

O que pode criar um monstro?
O que leva uma pessoa a  estragar a  própria vida
e a vida de outras por... Nada?
Será que é índole? Talvez, a mídia? A influência da televisão? A situação  social da violência? Traumas? Raiva contida?
Deficiência social ou  mental? Permissividade da sociedade? 
O que faz alguém achar que pode comprar armas  de fogo, entrar na casa de uma família, fazer reféns, assustar e  desalojar vizinhos, ocupar a polícia por horas e atirar em  pessoas  inocentes?
O rapaz deu a resposta: 'ela não quis falar comigo'.
A garota disse: NÃO, não  quero mais falar com você.
E o garoto, dizendo que ama, não aceitou um não.  
Seu desejo era mais importante.  
Não quero ser mais um desses psicólogos de araque que infestam os programas  vespertinos de televisão, que explicam tudo de maneira muito simplista e falam descontextualizadamente sobre a vida dos outros sem serem  chamados. Mas ontem, enquanto não conseguia dormir pensando nesse absurdo todo, pensei que o NÃO da menina Eloá foi o único. Faltaram muitos outros nãos nessa história toda.
Faltou um pai e uma mãe dizerem que a filha de 12 anos NÃO podia namorar um rapaz de 19. Faltou uma outra mãe dizer que NÃO iria sucumbir ao medo e ir lá tirar
o filho do tal apartamento a puxões de orelha.
Faltou outros pais dizerem que NÃO iriam atender
ao pedido de um policial maluco de deixar a filha
voltar para o cativeiro de onde, com sorte,
já tinha escapado com vida.
Faltou a polícia dizer NÃO ao próprio planejamento errôneo de mandar a garota de volta pra lá.
Faltou o governo dizer NÃO ao sensacionalismo da imprensa
em torno do caso, que permitiu que o tal sequestrador conversasse e chorasse compulsivamente em todos os programas de TV que o procuraram.
Simples assim: N Ã O!!!
Pelo jeito, a única que disse NÃO nessa história foi punida
com uma bala na cabeça.
O mundo está carente de NÃOS.
Vejo que cada vez mais os pais e professores morrem
de medo de dizer NÃO às crianças.
Mulheres ainda têm medo de dizer NÃO aos maridos
(e alguns maridos, temem dizer NÃO às esposas).
Pessoas têm medo de dizer NÃO aos amigos.
Noras que não conseguem dizer NÃO às sogras.
Chefes que não dizem NÃO aos subordinados.
Gente que não consegue dizer NÃO aos próprios desejos.
E assim são criados alguns monstros.
Talvez alguns não cheguem a sequestrar pessoas.
Mas têm pequenos surtos quando escutam um NÃO,
seja do guarda de trânsito, do chefe,
do professor, da namorada, do gerente do banco.
Essas pessoas acabam crendo que abusar é normal.
E é legal.
Os pais dizem, 'não posso traumatizar meu filho'.
E não é raro eu ver alguns tomando tapas
de bebês com 1 ou 2 anos.
Outros gastam o que não têm em brinquedos todos
os dias e festas de aniversário faraônicas para suas crias. 
Sem falar nos adolescentes.
Hoje em dia, é difícil ouvir alguém dizer:
NÃO, você não pode bater no seu amiguinho.
NÃO, você não vai assistir novela feita para adultos.
NÃO, você não vai fumar maconha.
NÃO, você não vai passar a madrugada na rua.
NÃO, você não vai dirigir sem carteira de habilitação.
NÃO, você não vai beber uma cervejinha 
enquanto não fizer 18 anos.
NÃO, essas pessoas não são companhias pra você. 
NÃO, hoje você não vai ganhar brinquedo ou comer salgadinho e chocolate. 
NÃO, aqui não é lugar para você ficar.
NÃO, você não vai faltar na escola sem estar doente.
NÃO, essa conversa não é pra você se meter.
NÃO, com isto você não vai brincar.
NÃO, você está de castigo e não vai brincar no parque.
Crianças e adolescentes que crescem sem ouvir bons, justos e firmes NÃOS, crescem sem saber que o mundo não é só deles.
E aí, no primeiro NÃO que a vida dá, (e a vida dá muitos) surtam. Usam drogas. Compram armas. Transam sem camisinha.
Batem em professores. Furam o pneu do carro do chefe. Chutam mendigos e prostitutas na rua.
E daí por diante.
Não estou defendendo a volta da educação rígida e sem diálogo, pelo contrário. Acredito piamente que crianças e adolescentes tratados com um amor real, sem culpa, tranquilo e livre,
conseguem perfeitamente entender uma sanção do pai ou
da mãe, um tapa, um castigo, um não.
Intuem que o amor dos adultos pelas crianças não
é só prazer - é também responsabilidade.
E quem ouve uns nãos de vez em quando também aprende a dizê-los quando é preciso.
Acaba aprendendo que é importante dizer NÃO a algumas pessoas que tentam abusar de nós de diversas maneiras, com respeito e firmeza, mesmo que sejam pessoas que nos amem.
O NÃO protege, ensina e prepara.
Por mais que seja difícil, eu tento dizer NÃO aos seres humanos que cruzam o meu caminho quando acredito que é hora - e tento respeitar também os nãos que recebo.
Nem sempre consigo, mas tento. Acredito que é aí
que está a verdadeira prova de amor.
E é também aí que está a solução para a violência cada
vez mais desmedida e absurda dos nossos dias.


Karina Cabral