Da caridade ameaçada

Há algum tempo, minha mulher ajudou um turista suiço em Ipanema, que se dizia vítima de pivetes. Num sotaque carregado, falando péssimo portugues,afirmou estar sem passaporte, dinheiro, lugar para dormir.
Minha mulher pagou-lhe um almoço, deu-lhe a quantia necessária para que pudesse passar uma noite no hotel enquanto contactava sua embaixada, e foi embora.
Dias depois, um jornal carioca noticiava que o tal "turista suiço" era na verdade mais um criativo malandro, fingindo um sotaque inexistente, abusando da boa-fé de pessoas que amam o Rio, e desejam desfazer a imagem negativa - justa ou injusta - que tornou-se o nosso cartão postal.
Ao ler a notícia, minha mulher fez apenas um comentário: "não é isso que irá me impedir
de ajudar ninguém."
Seu comentário me fez lembrar a história do sábio que, certa tarde, chegou à cidade de Akbar. As pessoas não deram muita importância a sua presença,
e seus ensinamentos não conseguiram interessar a população. Depois de algum tempo, ele tornou-se motivo de riso e ironia dos habitantes da cidade.
Um dia, enquanto passeava pela rua principal de Akbar, um grupo de homens e mulheres começou a insultá-lo. Ao invés de fingir que ignorava o que acontecia, o sábio foi até eles, e abençoou-os.
Um dos homens comentou:
- Será que, além de tudo, estamos diante de um homem surdo? Gritamos coisas horríveis, e o senhor nos responde com belas palavras!
- Cada um de nós só pode oferecer o que tem
- foi a resposta do sábio.

Os desejos negativos

O discípulo disse ao mestre: - Tenho passado grande parte do meu dia pensando coisas que não devia pensar, desejando coisas que não devia desejar, fazendo planos que não devia fazer.
O mestre convidou o discípulo para um passeio na floresta perto
de sua casa; no caminho, apontou uma planta e perguntou se
o discípulo sabia o que era.
- Beladona - disse do discípulo. - Pode matar quem comer suas folhas.
- Mas não pode matar quem simplesmente a contempla. Da mesma maneira, os desejos negativos não podem causar mal, se você não se deixar seduzir por eles.


Reflexão

Durante toda a sua vida, o autor grego Nikos Kazantzakis (Zorba, A Ultima Tentação de Cristo) foi um homem absolutamente coerente. Embora abordasse temas religiosos em muitos de seus livros – como uma excelente biografia de São Francisco de Assis – sempre considerou a si mesmo como um ateu convicto. Pois é deste ateu convicto, uma das mais belas definições de Deus que eu conheço:
“Nós olhamos com perplexidade a parte mais alta da espiral de força que governa o Universo. E a chamamos de Deus. Poderíamos dar qualquer outro nome: Abismo, Mistério, Escuridão Absoluta, Luz Total, Matéria, Espírito, Suprema Esperança, Supremo Desespero, Silêncio. Mas nós a chamamos de Deus, porque só este nome - por razões misteriosas – é capaz de sacudir com vigor o nosso coração. E, não resta dúvida, esta sacudida é absolutamente indispensável para permitir o contacto com as emoções básicas do ser humano, que sempre estão além de qualquer explicação ou lógica.”