A DELICIOSA SENSAÇÃO...
DE ESTAR SOZINHO E SENTIR-SE VERDADEIRAMENTE FELIZ

(Solidão: estado de quem se encontra ou vive só, isolamento – Dicionário Aurélio)

Enquanto enchia minha farta taça de vinho pela segunda vez, já com os dentes e lábios roxos,
dei-me conta de que a mesa a que me sentava estava vazia, exceto por mim.
Na cozinha também havia ninguém, assim como em todo o apartamento.
Sequer música se podia ouvir. Eu estava só e engolida pelo silêncio.

Por um segundo, incomodou-me um pouco que a ideia de que alguém, vendo aquilo,
pudesse concluir ser um momento de solidão abandonada.
O ato de beber sozinho carrega a história de escritores decadentes e amores de insucesso,
conferindo ao álcool um comportamento ambíguo: consumido em grupo,
serve para brindar a vida; já em isolamento, serve para afogar as mágoas.

Entre um gole e outro de vinho, a verdade me caiu como um estalo:
entre mim e aquele líquido, havia nada além de glória.
Não existia ânsia por companhia, tampouco sofrimento por sua ausência.
Pareceu-me injusto que não houvesse na Língua uma palavra que expressasse
a glória de estar só, mas felizmente o sociólogo Paul Tillich teve a cortesia de me apresentá-la.
Solitude: as quatro sílabas dançavam em minha língua já meio dormente.
“O idioma criou a palavra solidão, para expressar a dor de estar sozinho.
E criou a palavra solitude, para expressar a glória de estar sozinho.”
A Língua quase nunca desaponta.

Jobim inventou que é impossível ser feliz sozinho.
Terceirizando a responsabilidade pela plenitude do espírito, criou-se o estigma do
hedonismo acompanhado, de que a felicidade só é boa quando dividida.
As redes sociais estão aí para perpetuar o sentimento: haja sorrisos, brindes, porres e bossa....
haja viagens, selfies em grupo, bares lotados e músicas entoadas em coro.
Ficar sozinho parece coisa de gente humilhada e infeliz, mas talvez não suportar
a própria companhia por um instante seja o autêntico sinal de infelicidade.
Pessoas que têm hábitos como ir ao cinema, beber, dançar e fazer compras sem companhia,
causam grande furor às demais, ainda que ninguém tenha a curiosidade
de indagar se aquilo é ato intencional.
Só que a balbúrdia costuma causar ilusão de felicidade e a verdadeira fuga pode residir aí.

É bem provável que uma vida inteira de solitude se transforme em solidão, mas é curioso como
viver apenas em grupo cansa e chega uma hora em que tudo o que se quer fazer é correr dali
para a calmaria do mar, que só é alcançada quando se nada para dentro.
Solitude é uma opção, um deleite, uma vontade. Talvez sua graça seja saber que é facultativa e que,
quando a alma pedir por compartilhamento, haverá pessoas queridas que ficarão felizes em oferecê-lo.

Necessário, portanto, ser forte e seguro para curtir a solitude,
sendo a recompensa tanto simbólica quanto aproveitável.
Basta perceber que grandes decisões e guinadas na vida costumam
ser precedidas por momentos de recolhimento.
Bastar-se não se restringe à negação das pessoas e do mundo, e, sim,
saber que existir não depende necessariamente de alguém além de si.