Estar ou não solteiro
(eis a questão
)

Por definição, estar solteiro é usufruir ao máximo da sua liberdade de ação, opção, sensações e desejos e ausência de compromisso. Você pode ser intenso e ousado, sem precisar dar satisfação ao outro ou se preocupar em magoar alguém. Mas, nem sempre é assim, de certa forma não temos o direito de brincar com os sentimentos alheios e, podemos escapar e ocultar os nossos anseios e desejos a todos, menos da nossa consciência.

- “É claro, que eu amo a minha solteirice, pois ela combina demais com a minha personalidade autônoma e livre, onde eu não preciso dar satisfações aos outros das minhas escolhas e travessuras, podendo usufruir da companhia dos meus amigos, me jogando na pista e vivenciando a “night” com tudo o que ela pode me oferecer. Quem não gosta de uma boa, estimulante e vital boemia para relaxar?!!! Eu não sei de vocês, mas, eu só posso responder por mim: Eu preciso. Sinto-me vivo, existente. Mas...”

Chega aquele momento que a personalidade de alguém, 100% afetiva, voltada a sua área sentimental expressa pelo seu inegável romantismo (por mais que eu queira negar para mim mesmo, o romantismo está ali, pulsando dentro de mim e povoando os meus sonhos), grita por um colo, por um carinho, por uma companhia que possa fazer toda e qualquer diferença.

- “Então, jovem, muitas vezes, eu coloquei outras áreas na berlinda e como prioridade na minha vida para ocupar o vazio que eu não quero sentir, por estar cansado de sentí-lo. Cansa buscar o amor, quando ele nunca chega, ou, por um minuto qualquer, quando achamos que encontramos, percebemos que foi mais um engano. O que fazer diante de tal frustração?!!! Só nos resta negá-lo, anestesiando esse cansaço.”

Mas, mediante a esse cansaço, eu já desenvolvi uma dinâmica “Dan” para aquietar o meu coração, para abaixar a adrenalina da minha carência, para ludibriar a minha ansiedade voraz e para controlar a minha impaciência intrínseca, mas, cá entre nós, não é muito eficiente, embora sirva para resignar-me diante dessa eterna espera.

- “Eterna espera, porque, ninguém com quem eu já me relacionei conseguiu abrandar a minha fome de amor ou conseguiu se aproximar da minha utopia romântica, utopia ou não, EU QUERO UM AMOR CORRESPONDIDO. Como também, eu quero amar verdadeiramente, como nós lemos nos livros românticos e de auto-ajuda e como os amantes depõem sobre.”

Possivelmente, com o decorrer dos anos, entre sucessivos desencontros amorosos e desestimulantes frustrações, eu esteja aprendendo a lidar melhor com alguns espaços vazios
que perpetuam a minha afetividade. Mesmo perdendo a fé em alguns momentos,
recuperando-a em outros, a tristeza e a amargura não conseguem aplacar o meu sorriso,
o meu otimismo e a minha paz de espírito.
Talvez a experiência e a maturidade da vida nos façam compreender com mais clareza:
a nossa cota para o insucesso nos fadados relacionamentos; a indisponibilidade e/ou
ausência de sintonia alheia para retribuir à altura (da forma ideal como esperamos que fosse)
os nossos sentimentos, as nossas expectativas ou ilusões (lacunas estas que só nos dizem respeito e como tal, só nós podemos preenchê-las); as mesmas repetições amorosas que
marcam as nossas escolhas amorosas; as justificativas que adotamos, seja para explicar
o que não tem resposta ou para amenizar o nosso desinteresse ou dos outros ou as falhas
e as omissões dos algozes da nossa agonia.

- “Mas, por mais implacabilidade ou frieza que alguns queiram aparentar, sendo fortes e inabaláveis nessa área, não há mortal no mundo que não se sinta impotente quando os seus esforços, tentativas e sonhos de amor, caem por terra. Tem aqueles que se corroem por dentro, mas, por fora, estão aparentemente indiferentes. Tem aqueles que se jogam no mais profundo abismo, seu abismo afetivo repleto de sombra, amargura e dor. Tem aqueles que são simplesmente irresponsáveis e sem zelo pelo sentimento alheio. Tem pessoas como eu, que têm os seus lutos temporários e avaliam tudo o que foi vivido, buscando compreender o que houve e aonde possam ter errado na relação.”

Mesmo diante de toda festa, toda euforia e diversão, existe aquele momento quando você está sozinho, consigo mesmo, que surge aquela necessidade humana de ter alguém, uma pessoa especial para ter com quem conversar sobre o seu dia, desabafar e dividir os seus anseios e problemas, fazer e receber carinho, apenas ficar olhando no fundo dos olhos, tocar nas estrelas depois de uma tórrida noite de amor ou da mais arrepiante sacanagem, fazer planos a dois, enfim, construir uma história, mesmo que depois de um tempo, por mais que não se queira ou se possa prever sobre, exista um fim, nem sempre de forma harmônica e civilizada.

- “Eu perdi a contagem de quantas vezes eu me peguei pensando e desejando alguém que eu ainda nem conheço ou com saudades de um amor que eu nunca vivi. Nem sei quantas vezes eu me angustiei com essa ausência ou com a impossibilidade de não vivenciar isso. Mas, a gente aprende ou passa a cogitar a possibilidade de que essa regra – “sempre há um chinelo velho para um pé cansado” pode não ser uma verdade absoluta ou, infelizmente, essa oportunidade já bateu na sua porta e você deixou passar.”

Diante dessa hipótese, eu prefiro ainda crer, por 1 minuto de esperança, considerando que:
“A esperança é a última que morre”
; e enquanto eu estiver vivo, mesmo oscilando entre a fé e a desfé, chateando-me com Deus algumas vezes, por Ele não facilitar o meu caminho, deixando que o derradeiro encontro aconteça logo, só me resta ser um pouco mais otimista e usufruir dos momentos felizes que acontecem na minha vida, mesmo mediante tal ausência.

- “Por mais que eu goste da minha vida de solteiro, que eu esteja conseguindo
usufruí-la da melhor maneira possível, sem me degradar e tentando não passar por
cima dos sentimentos alheios como um trator – mesmo sabendo que em algumas situações é inevitável; eu vou seguindo, seguindo, seguindo... E torcendo pelos relacionamentos dos meus amigos, realizando-me através da felicidade deles e me inspirando nos exemplos que eu conheço.”


Estar ou não estar solteiro, eis a questão. Só sei que eu trocaria a minha solteirice, se, somente se, eu tivesse o amor correspondido que eu tanto quero e não tivesse de abrir mão de ser quem eu sou e de fazer as coisas que eu gosto. O fato é: Eu não sei se eu abriria mão de mim mesmo, tudo o que implica o que eu sou (personalidade, essência, preferências, gostos e sonhos), apenas para ter um “papagaio de pirata” no meu ombro.

- “Nunca me agradou ter figurantes na minha vida, mas, personagens reais que protagonizem os esquetes da minha vida, de igual para igual, elaborando-me, instigando-me, desafiando-me, burilando-me, enfim, fazendo-me crescer.”

Simplesmente, desde sábado passado, eu acordei com vontade de saciar a minha fome, preencher algumas lacunas e ser um pouco mais feliz, não sozinho, mas, acompanhado.