Eu sou feliz, sim

Já se vão vinte e dois anos que estou casada e sou feliz.
Minhas amigas vivem a apontar defeitos nos seus casamentos. Várias se separam, namoram, casam de novo e, no final, eu percebo que as reclamações continuam as mesmas.
Meu marido é responsável, cumpridor dos seus deveres,
bom pai, trabalhador e... é tudo que uma esposa pode querer.
Temos uma vida financeira razoável e vivemos num apartamento bastante simpático.
Dessa união nasceram dois filhos encantadores e com o mais importante, saúde.
Então, eu não posso dizer que sou feliz?
Tudo bem, muitos sonhos eu amputei dentro de mim, milhares de necessidades interiores foram sucumbindo e me amargando a vida.
Certo, meu casamento não é nenhuma Brastemp, mas será
que, depois de mais de vinte anos, algum consegue ser?
Pra ser bastante sincera, de um tempo pra cá, eu ando sentindo que essa minha felicidade matrimonial ficou morna. Parece que faltam tantas coisas... tem hora que parece até que falta tudo. Faltam aquelas coisas que existem só no começo das relações: carinho, atenção, participação, cumplicidade, chamego... falta até tesão. Todo dia, tudo igual. Um ritual que não muda, não se altera por nada desse mundo.
Pra dizer a verdade, tem hora que parecemos dois estranhos dividindo um apartamento. Nesses mais de vinte anos, diversas coisas mudaram e evoluíram dentro de mim, e ele sequer ficou sabendo. Eu não sou mais aquela mulher com quem ele se casou.
Agora eu sou bem melhor, mas ele não se deu conta disso.
Eu gosto de conversar, contar e saber das novidades, discutir assuntos que estão
na pauta do momento, mas freqüentemente venho falando sozinha.
A impressão que eu tenho é que mais nada do que digo é interessante.
Quando falo, ele me olha com um ar de desinteresse total e murmura
um "hum", muito raramente, dois.
Elogios? Não escuto mais. Posso perder alguns quilos, comprar roupa nova, lingerie sexy, fazer um corte especial no cabelo ou até pintá-lo de outra cor.
Meu marido parece que ficou cego. Às vezes tento mudar nossa rotina - convido para um cinema, e a resposta é sempre desanimadora.
- Meu bem, coloquei tv a cabo aqui em casa justamente
pra curtirmos uns filminhos no conforto do lar.
Além disso, não se esqueça de que temos também o DVD, é só alugar algo interessante.
Aí ele se deita no sofá e ronca, jamais termina de assistir o filme comigo. É frustrante...
Se convido para ir dançar, ele me olha assustadíssimo e responde:
- Ah, amor, não temos mais idade pra isso... Além do mais eu nunca gostei de dançar,
nem de ir naquelas casas noturnas entupidas de gente e barulhentas.
Qualquer dia saímos pra tomar um chopinho...
Um dia desses pedi, implorei para irmos ao show da Ana Carolina, que eu adoro.
Ele apenas respondeu: - Faz o seguinte, combina com uma amiga e eu aproveito
pra tomar um whisky com o pessoal do trabalho.
O que ele não entende é que eu não faço questão de cinema, de dançar, de shows.
O que eu procuro é a novidade, a mudança, o tesão pela vida, que há muito eu já perdi.
É uma mesmice tão grande, diariamente, que eu sinto como se estivesse parada no tempo.
E enquanto levo essa vida estagnada, com essa felicidade morna, percebo que o sexo... gelou. A cama virou um ponto de encontro onde dizemos boa noite um ao outro e, eventualmente, temos um contato físico sem graça, rápido, desconcertante.
Atualmente, quando estou andando pelas ruas, observo os homens que passam por mim. Uns me olham, outros sorriem, alguns se atrevem a me dar uma cantada audaciosa.
Tão bom! Dá vontade de perguntar: - Quer ir ao cinema comigo?
Quer dançar comigo? Quer me levar a um show? Quer fazer amor comigo? Se quiser, apenas, fazer sexo eu também topo, mas que seja um sexo gostoso, cheio de tesão.
Por enquanto ainda não cometi essa loucura, mas quem sabe, um dia...
Fico até pensando se seria mesmo uma loucura ou uma prova que eu daria
a mim mesma de total sanidade mental.
Não, eu não sou adepta da traição, muito pelo contrário, mas fico achando que no meu
caso isso não seria traição e sim um grito de liberdade que meu coração, alma e
corpo estão precisando dar com urgência.
Separação? Não penso nisso.
Já imaginou a trabalheira e a chateação que eu teria?
Depois o mundo ia querer saber o motivo e eu não teria muito que dizer porque os meus motivos são motivos que uma mulher só conta a si mesma.
O meu grande motivo é o vazio que se transformou a minha vida e a
não conformação de ter que viver dessa maneira até o final dos meus dias.
Não creio que eu chegando diante de um juiz e contando toda essa história ele
entenderia, mas tenho absoluta certeza que se fosse uma juíza ela entenderia e ainda
diria ao meu marido: - O senhor terá que arcar com uma indenização
por ter roubado os sonhos dessa mulher.
Até que seria engraçado se não fosse trágico.
Mas, enquanto nada disso acontece, eu vou fingindo
para mim e para o mundo que sou feliz, sim.

Silvana Duboc