Hoje peço-te perdão

Perdão, amor meu.
O tempo emaranhou meus anseios,
a desilusão enriqueceu os meus receios
e eu me perdi
na tênue fronteira entre o sonho e o real.
Perdão, amor meu.
Tu me deixaste livre para meus quereres
para meu vôo de descobertas
para o grande salto dos meus pensares
e eu me perdi
na falsa luz de outros olhares.
Perdão, amor meu.
Nem percebi a mansa constância
das tuas mãos nos meus declínios,
teu beijo calado
no enxugar dos meus prantos,
tua presença disfarçada
no coral dos meus cantos...
Perdão, amor meu,
se não te vi na platéia
aplaudindo o meu desempenho,
nas flores sem remetente,
no "eu te amo" disfarçado,
nas pedrinhas atiradas com cuidado
nas janelas do meu sonhar.
Perdão, amor meu,
se na minha vida surgiste
quando o orgulho ferido era tão gritante
que não te deixei espaço
para qualquer carinho em meu regaço.
Perdão, amor meu.
Toma posse daquilo que hoje é teu:
um tolo coração que hoje te ofereço
sem reserva de domínio,
sem pendências e sem preço.

Cleide Canton