Incompreensão

Em uma fria noite, de luar intenso e branda ventania, parei meu carro ao pé de uma frondosa árvore, para admirar a beleza daquela paisagem.
No silêncio da noite, para minha surpresa, pude ouvir os lamentos
que a paineira dirigia ao vento e à lua. Dizia ela:
- Sinto-me triste pela incompreensão dos homens, pois ofereço-lhes o abrigo das minhas folhas para protegê-los do sol e da chuva, porém eles não olham para cima, mirando-se apenas na rudeza de meus espinhos.
Abro-me, então, em alvas flores buscando encantar-lhes, mas seus olhos não alcançam as pacíficas flores, fixam-se na rudeza dos espinhos.
Completando o milagre da natureza, cubro-me de frutos.
Dada a inacessibilidade provocada por meu espinhoso tronco, abro os frutos e atiro-lhes a paina que, recolhida, há de servir de enxerto a seus edredons e travesseiros, o que os protegerá dos rigores do inverno e servirá de macio repouso às suas cabeças.
E, ainda assim, eles só observam a rudeza de meus espinhos...

Assim é a vida daqueles que se prestam a servir a alguma causa.
Nada do que fizeram de bom servirá para aplacar a ira dos críticos,
pois estes, mergulhados que estão na acidez crítica, por julgarem-se sempre donos da verdade e senhores de toda vontade, não elevam
seus olhares além de suas próprias incompreensões.

Carlos Thadeo