Marias

Sempre quis entender qual a razão da palavra saudade nunca ter sido traduzida para outros idiomas uma vez que ela simboliza um dos sentimentos mais profundos que o ser humano pode ter.

Saudade: Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas
distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar
a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos
é querido; nostalgia.

É sobre isso, lembrança triste de pessoas extintas que vou falar, mais especificamente, sobre filhos que partiram para nunca mais voltar.
Acho muito interessante, também, que não foi criado um nome para designar as mães que perderam seus filhos.
Viúvo/a, significa quem perdeu o seu cônjuge. Órfãos são os filhos que perderam seus pais. E quanto as mães que perderam seus filhos?!?!
Tudo que se refere as mães é muito complexo, delicado. Elas são seres especiais, portanto, tudo que as envolve é difícil de descrever.
Talvez, por isso, nunca tenha sido inventado um nome para designar mães que devolveram seus filhos ao Pai, na visão delas, antes do tempo.
Até mesmo o tempo parece que age diferente diante dessa situação dolorida. Não dizem que ele não pára, não adianta nem atrasa, não muda sua rota e velocidade? Pois nesse caso ele age de uma forma inacreditável. O tempo congela diante da perda de um filho.
Não importa se esse filho partiu há vinte anos ou há vinte dias.
No coração de uma mãe vai sempre parecer que ele partiu há vinte segundose é aí, nesse mínimo espaço de tempo, que mora a dor,
a saudade, a tristeza e o vazio do coração de uma mãe.
Infelizmente outros filhos não conseguem jamais substituir aquele
que partiu . Cada um tem seu lugar específico, seu espaço especial
que não tem como ser ocupado por um outro filho
por mais qualidades que ele possa ter.
As mães não amam pelas qualidades que seus filhos têm, elas os amam, acima de tudo, pelos defeitos que eles apresentam. É justamente aí
que elas provam que seus corações são amplos, generosos e irrestritos. Amar filhos pelas suas qualidades é fácil, é muito simples, difícil é persistir em amá-los apesar dos defeitos e apesar de todos os tipos de ausências que eles, em vida ou em morte, possam impor às suas mães.
De tantas mães que perderam seus filhos uma certamente foi o maior exemplo de resignação, força e coragem. Maria, a mãe de Jesus.
Amou mais do que se imaginava que seria possível, padeceu ao ver seu filho morto em seus braços, derramou lágrimas além do que poderia mas, nunca perdeu a fé.
Ela foi o grande exemplo a todas as mães que surgiriam na vida.
Ouso, portanto, dizer que, no Aurélio, deveria estar contida a palavra Maria e o seu significado deveria ser descrito dessa forma:
Maria: Mães que perdem seus filhos; mães que são privadas
da presença mais importante de suas vidas;
mães desamparadas pelo destino.

Essa é uma dor que, por mais que seja descrita, nunca poderá ser assimilada por quem não a viveu.

Silvana Duboc

(Texto dedicado a todas as Marias, especialmente, com carinho, para Ana Beatriz.)