Não perca o seu amor

Como não perder a quem amamos?...
Ouvi a pergunta e fiquei calado conversando com meus pensamentos enquanto as opiniões dos interlocutores ficavam cada vez mais acaloradas como discursos de bocas espumantes...
Mas eles se afastaram e não consegui ouvir suas conclusões,
e como amor é o assunto que domina meu coração, continuei
com o meu diálogo particular.
Quem são esses valores que se perdem?
– perguntava a mim mesmo. E continuei:
– Seriam amigos, parentes ou amores?
Não, amor não pode ser que se perca...
Porque o amor que acabou como uma bruma que passa desgastada pelos desvanecentes apelos dos sentimentos transitórios, não era amor... O amor é eterno, ainda que digam dele que, enquanto dure.
Porque ele não discutirá jamais esse tempo, por conhecer seu próprio tempo, pois foi o amor quem pronunciou a primeira palavra, e ela ressoa ainda nos mesmos ouvidos eternos que a ouviram, e ressoará para sempre nesse eco também eterno...
Ele (o amor) não dirá jamais uma palavra que desagrade.
Se essa palavra for dita ou ouvida, quem ouve ou fala
não é amor, e provavelmente (e muito provavelmente)
os dois não são... Porque as palavras ditas pelo amor vão
e voltam como um eco eterno, que repete e repete
por todo o sempre e sempre... Sempre.
O amor não discute quem está certo ou errado, porque não conhece a mínima possibilidade de erro em todos os seus domínios de saber.
Não discute posições, porque se houver hierarquia nesse espaço eterno, ela é estabelecida sem palavras que provem (ou não) quem é maior
que quem, porque o amor não pisa um degrau acima do degrau do outro, e muito menos pisa esse outro para olhar um horizonte não
visto por todos os olhos do amor; o amor olha ao mesmo tempo
em várias direções justamente porque vê tudo que todos
os olhos dos que amam vêem.
Alguém ressentido com a palavra não é o amor...
Alguém magoado com um gesto, igualmente não...
Porque onde quer que uma palavra magoe ou um gesto revolte, há um estranho sentimento que não pode ser nomeado com o nome do qual nós falamos com amor nos lábios purificados dos malefícios da paixão... Ainda porque conhecemos os sentimentos eternos daquele que está assentado no trono dos nossos corações...
Isso tudo fui eu divagando... E nessa divagação me lembrei que um dia meu coração doeu quando ouvi de uma separação inconfessável:
Havia uma desavença de duas vidas que, à distância, eu pensava se amarem com o amor do qual falo sempre. Mas é que me engano quase constantemente, vendo amor em tudo que assim parece...
E ali uma palavra foi dita fora do tom e do tempo do amor e uma separação tão dolorosa foi confirmada.
Porque uma palavra mal colocada só pode ser dita onde não exista amor, e quando ela é pronunciada só confirmará o que já está separado ainda que o engano durma na mesma cama, abrace o mesmo braço e una diferentes bocas como uma só... Porque o beijo do engano é muitas vezes descoberto um instante depois quando as bocas se abrem. Mesmo porque o atrito que antes era das carnes, agora é do espírito...
E duas peles foram rasgadas a ferro e fogo no momento de descolar.
Dou um exemplo: Cole duas folhas de papel de qualidades e cores diferentes uma na outra. Depois tente separá-las. Difícil fazer sem rasgá-las. Tente outra vez, e verá que, resquícios de uma ficará na outra, e as cores diferentes que antes eram motivo de atração, agora são manchas que não desgrudarão jamais sem deixar horrendas cicatrizes... A separação causará sempre um desconforto e uma dor, e haverá uma lágrima de saber que fragmentos de uma continuará na outra sem ter como tirar completamente, sendo que a dor ficará, numa ou noutra situação, como inevitável consequência...
Mas não é este o meu assunto...
Um dia, quando o tempo do amor dominar novamente o coração sem contenda, haverá um olhar para um ponto mais elevado e mais alto, e também haverá uma compreensão maior de tudo que aconteceu, e ficará um alívio e uma alegria... E um leve sorriso...
Eu estava ainda pensando nestas coisas quando alguém
tocou levemente em meu ombro e perguntou:
“Que semblante bonito é este do teu rosto?...
Quais são os pensamentos que passam nessa cabeça?...
Que se passa de tão bonito nesse coração?...”
Eu sorri, mas não disse nada...
O semblante de quem ama fala melhor que as palavras...

Adelmario Sampaio