Nasci mulher

Joguem-me pedras, quem quiser!
Fazer o quê?
Nasci mulher
sujeita a chuvas e tempestades
à mercê de mentiras e maldades
de loucuras e insanidades.

Vim ao mundo pronta para sofrer
e com isso nada perder
porque caio e me levanto
morro e pego no tranco.

Das minhas infantilidades nem vou falar
são tantas que é melhor nem contar.
Quanto a minha inocência eu só posso dizer
que quanto mais o tempo passa
mais ela tende a crescer.

Parece que estou ficando burra
cega e surda.
Meus discursos mudaram
minhas rotas alteraram.
Minhas certezas agora se confundem
minhas dúvidas aumentaram
e minhas inseguranças triplicaram.

E aí me envolvo em situações descabíveis
cometo atos horríveis
tudo em nome do amor
que em seguida me remetem à dor.

Às vezes, me sinto uma menina
vivendo em plena adolescência
com todas aquelas urgências
que surgem junto a primeira menstruação.

Depois me sinto uma velha sem emoção
cansada de guerra
parece que nem tenho mais coração.
Fazer o quê?
Nasci mulher e sangro todo mês
foi assim que fui feita
e quando a natureza ordenar
que eu pare de sangrar
com certeza lá dentro do peito
o tal do sangue vai continuar a jorrar.

Aí eu volto a me apaixonar
e fico boba, pateticamente inocente
e vão me julgar incoerente
e me jogar pedras pelas costas e pela frente.

Mas o que posso fazer?
Mulher, já tinha sido decidido que eu ia ser
e eu não posso essa decisão reverter.

Silvana Duboc