No Limit Hold

Ele não estar agora com ela não foi o que mais doeu,
o nunca esteve é que foi foda dela aguentar.
Não é o fim de uma história o que mais machuca, a ausência
da história é que maltrata adoidado o coração.
Ela imaginou-se jogando cartas em dupla. Um baralho de fantasias, vaivém amoroso sem regras, sem apostas, mas a dois.
O engodo entrou pelo ânus da carência.
Instalou-se comodamente no intestino do destino.
A imbecil ficou no Buraco sem jamais pegar o morto.
Emagreceu, quase secou esperando o descarte da outra parte. Obtusa mente que cismava de falar "mon amour".
Paciência era o jogo que a demente não sacou.
Partida do eu sozinha, do eu me basto.
Sem logro, sem artifícios, sem luta,
sem disputa, sem calor, sem amor.
Depois de vinte e dois meses de uma “elefantal” gestação nasceu finalmente um fiapo de sentido, que lhe trouxe uma ligeira lucidez.
Lembrou-se das dores da espera de um beijo, de um recado, da triste alegria quando recebia uma migalha de carinho, do enorme vazio na barriga da paixão que nunca ficava suprida por mais afeto calórico que recebesse de outros, pessoas normais, sem hábitos, fantasmagóricos.
Deixou-os passar pela sua vida, perdeu bons parceiros naqueles quase dois anos de sandice, por culpa de um sanguessuga maluco, que brinca com a ilusão dos outros.
Num lampejo, recordou-se que existem ótimos antivermes para equinos. Ela, a bestaburra, tomou logo uma overdose e, numa memorável diarréia emocional, soltou a maldita tênia
responsável pela sua quebra de sentidos.
Libertou-se da solitária solidão e de quaisquer resquícios de pudor.
Mudou radicalmente o seu valor.
Afinal, valemos o preço que nos damos.
No momento presente, o verme vagabundo veloz vaga no vaso.
Seu caminho é o esgoto, ao lado dos ratos, e ela aprendeu um novo jogo: Pôquer. Jogo de blefe com diversos parceiros. Anda fazendo Royal Flush adoidado. Não tem paus, não tem ouro, não tem espada, não tem coração que segure uma mulher mordida pela
mágoa de ter sido uma babaca.
No Limit Hold para a nova puta, atributo que ganhou das
línguas de cicuta por aprender a ir à luta.

Rosa Pena