Nossa Senhora
e o eterno feminino

Cresci achando Nossa Senhora uma figura difícil: para mim, parecia longínqua demais, asséptica demais, domesticada demais. Embora minhas avós e tias portuguesas compartilhassem entre si uma devoção cheia de intimidade com a “Virgem”, eu não conseguia combinar meu entusiasmo de menina e um recém-descoberto idealismo feminista com a figura sem mácula e virtuosa que invariavelmente surgia nas aulas de catecismo. Só muito mais tarde descobri que aulas de catecismo eram os lugares menos adequados para quem quisesse se apropriar das múltiplas e ricas imagens da Mãe de Deus. E entendi porque
a única resposta das mulheres da família às minhas provocações sobre Maria limitava-se a um sorriso condescendente. Pareciam dizer que eu ia entender.
Assim, decidida a acreditar que a Virgem era uma mera construção dos “padres” para manter as meninas boazinhas, passei muitos anos longe dela. Até que um dia, ela apareceu de novo. E quase não a reconheci. Estava na época, fazendo um trabalho sobre as idéias que povoavam o imaginário dos colonizadores quando chegaram ao Brasil. O livro chamava-se "As Origens do Cristianismo Português",
de um sociólogo português chamado Moisés Espírito Santo.
E ela estava lá, sorrindo para mim...
A cada página do livro iam surgindo novas Marias, novas Senhoras, novas imagens cheias de significado, como se fossem vestidos enfeitados e jóias preciosas
cobrindo de encanto e mistério a figura superficial que vivia em mim.
Foi assim que eu soube que o culto a Nossa Senhora, pelo
menos no início tinha sido quase que uma imposição do povo.
Uma afirmação do poder das religiões antigas no seio dos novos monoteísmos.
De fato, Maria seria a herdeira de uma linhagem de Grandes-Mães, veneradas em todo o Oriente Médio, na Ásia Menor, no Egito, na Arábia, e trazido na
bagagem dos comerciantes para povoar de feminino o Ocidente.
Essa divindade feminina era conhecida por vários nomes.
Na Síria, onde o professor Moisés diz que se originou o culto português, ela chamava-se Iasura, a criadora ou, também Atagartis, a criadora de homens.
Essas deusas eram confundidas com divindades femininas ainda mais antigas, como a Astarté dos fenícios, Afrodite dos gregos e Cibele, a deusa da Lua romana. Se a gente olhar o mapa-múndi e procurar na Turquia a cidade de Éfeso,
onde, dizem, Nossa Senhora foi viver com São João depois da morte de Jesus,
vai ver que de Jerusalém até Éfeso é um longo caminho, cheio de cidades que,
na época zumbiam no ritmo do comércio e das trocas nem sempre amistosas
entre os povos da região.
É em volta do Mediterrâneo que o professor assinala os locais de culto da
Grande-Mãe. E é de lá que, atravessando o Mediterrâneo, chegarão até a Península Ibérica, os comerciantes, os escravos e os fugidos das guerras trazendo
no peito uma imagem feminina, a imagem de Maria.
Diz a lenda que, em 431, quando o concílio reunido em Éfeso declarou oficialmente que Maria era Mãe de Deus (Theotokos), o povo da cidade foi para as ruas gritando vivas e louvores para sua “deusa”. Teria sido por mero acaso que a cidade onde a Mãe de Jesus tornou-se Mãe de Deus era a mesma que atraía centenas de visitantes para seu santuário em honra de Ártemis ou Diana,
figuras femininas veneradas na época?
Tanto entusiasmo, é claro, assustou os doutores da Igreja
e aos poucos, uma Maria “oficial” foi sendo construída,
até não sobrar quase nada da exuberância da figura original.
É dessa construção que nasceu a Nossa Senhora apagadinha e sofredora da
minha infância. Só que, paralelamente à história oficial, o povo continuava
criando outras, muitas vezes, em segredo. E Nossa Senhora encheu as aldeias da Europa de flores e festas. Maio é o seu mês. Mês de primavera no
hemisfério norte. Mês de alegria, de luz.
A Maria das aldeias é literalmente “cheia de graça” e poderosa.
É ela que recebe os pedidos de fertilidade, de amor, de proteção. E revela suas múltiplas faces. Suas aparições acontecem por toda parte, ainda que a Igreja não reconheça a maioria delas. Coberta de jóias e enfeitada como Rainha, a imagem mais comum. Com o seio à mostra, amamentando o pequeno Jesus, como é o caso das exuberantes e sensuais (talvez por isso, difíceis de encontrar) Virgens do Leite. Negra, como as tantas, Madonas escuras espalhadas por toda a Europa. No Caminho de Santiago de Compostela, por exemplo, o peregrino encontra muitas dessas mães negras. Uma das mais famosas é a de Rocamadour, na França, que parece uma figura africana. A Maria de Jasna Gora, na cidade de Czestochowa, reverenciada pelo Papa João Paulo II e que talvez seja a mais festejada imagem sagrada da Europa, também é uma dessas madonas Negras. Por que negras?
A igreja tem evitado a pergunta ou, na melhor das hipóteses, atribui a negritude
de Maria à fumaça das velas. Improvável hipótese.
Gosto mais da resposta do estudioso da vida de Maria, Jaroslav Pelican: Nossa Senhora já nasceu como símbolo multicultural, lançando pontes entre povos e culturas, entre gentes tão diferentes, atravessando mares e oceanos, um símbolo pontífice, quer dizer, capaz de funcionar como elo entre várias tradições culturais. Por isso, quem se espantaria de saber que Maria, como Maryam,
seja o único nome feminino que aparece no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, no longo sutra 19?
Engraçado, cresci ouvindo minha mãe contar sobre “aquela vez em que Nossa Senhora de Fátima”, veio visitar o Brasil. Fazia calor no Rio de Janeiro e era já de noitinha. Lá no alto, a imagem branca contrastava com o céu escurecido.
As mulheres da casa acompanhavam a procissão que se estendia pelas ruas,
lenta e majestosa como convém à visita de uma grande senhora.
E parecia ao mesmo tempo tão natural e tão espantoso que, durante todo o trajeto, uma pomba branca estivesse pousada no ombro da Virgem.
Coisas de Nossa Senhora...


Adilia Belotti