Nosso cofre

A vida é constituída de recordações que vamos acumulando dentro
de um cofre imaginário, ao longo dos anos.
Algumas dessas recordações vão se apagando da memória, outras, cada vez mais vão ficando vivas dentro de nós e é aí que podemos avaliar o grau de importância que, cada momento que vivemos, teve em nossa vida.
Com certeza existirão alguns que serão devastadoramente importantes para nós, e talvez quem os viveu ao nosso lado, não dê a eles a mesma importância;
mas quando temos a certeza de que quem estava junto de nós naquele
instante também o guardou no tal cofre, aí aquele momento
se tornará eternamente mágico.
Agora vou contar a vocês uma dessas histórias de cofre.
Ele, ainda jovem, conheceu uma jovem que se chamava Yara.
Tiveram um amor adolescente, profundo..., sim, e quem disse que
um amor entre jovens não pode ser profundo?
Costuma-se dar pouca importância a esses amores, porque
se tende a acreditar que serão passageiros, efêmeros.
A família dela foi radicalmente contra: ele era um rapaz pobre, a mãe uma costureira de cidade do interior e, já naquela ocasião, separada do marido.
Não era com certeza o rapaz que eles sonharam para a filha. Tudo foi feito para afastá-los e quando se viu que nada dava resultado, a família dela resolveu mudar de cidade, levando-a para longe dele.
A seguir, vieram anos difíceis para ambos.
A saudade, a tristeza da separação, o sentimento de derrota diante do amor, colaboraram para muitos momentos de sofrimento para eles.
Depois de algum tempo, ele veio a conhecer uma jovem especial e se casou
com ela. Logo a seguir, foram brindados com o nascimento de uma filha,
a quem deram o nome de Yara.
Sua esposa conhecia toda a história de Yara e seu marido, mas aceitou que colocasse esse nome na menina sem problemas, acreditando que aquilo
havia sido somente uma história do passado, embora importante para ele.
Quinze aos depois, sua esposa veio a falecer e, depois de algum tempo sozinho, ele voltou a se casar com outra mulher não menos especial que a primeira.
Os anos foram passando e a ex-namorada Yara, de alguma forma
sobreviveu todo esse tempo em sua filha.
Algumas pessoas lhe perguntavam se ele tinha alguma notícia de Yara,
ao que ele sempre respondia: NUNCA MAIS!
Quando ele já estava com 73 anos e certo de que o passado havia sido definitivamente enterrado em algum canto escuro do seu coração,
Yara chegou em sua cidade e, através de uma amiga comum, mandou um recado a ele: gostaria de vê-lo.
Ele estava num processo de troca de prótese dentária e, segundo sua esposa, ficou muito tenso quando recebeu o recado e contou a ela como se fosse algo muito simples, mas estava visível aos olhos dela que não era.
Ela, então, disse a ele: - Vá, vá encontrá-la, você precisa
vê-la antes de deixar este mundo.
Acontece que sua prótese só ficaria pronta uma semana depois e ele não quis aparecer para Yara sem ela, teve uma vaidade adolescente, teve um desejo humano de se fazer bonito aos olhos dela e disse então a tal amiga comum que
a encontraria sim, mas só poderia ser no final da semana e não explicou o real motivo. Ficou marcado então, um encontro para o sábado de manhã, pois ele pegaria sua prótese na sexta-feira, às 5 horas da tarde.
Sua esposa acompanhou todo esse processo de ansiedade dele com o coração um pouco machucado, mas com uma grandeza de espírito inigualável.
Depois de tudo isso, veio o destino traiçoeiro e mudou todos os planos de Yara. Ele foi acometido por um acidente vascular cerebral na porta de sua casa,
ao meio dia da sexta-feira, e morreu; ele nem chegou a pegar sua
prótese, muito menos rever Yara.


Yara viveu realmente como um sonho na vida dele até o último instante e acabou sendo um sonho para todos da sua família, mas com certeza, aonde
quer que se encontre agora, Yara há de estar com ele, porque ela viveu sempre dentro do seu coração e o nosso coração nada mais é do que o nosso
COFRE SENTIMENTAL.
Com certeza, cada um de vocês que me lê agora, tem em seu cofre alguém ou algum momento guardado e esse alguém ou esse momento, vocês levarão para sempre junto de vocês, aonde quer que forem.
Você quer saber se ele também estava guardado no cofre de Yara?
Pergunte ao seu coração.
A única coisa que eu posso dizer é que aos 70 anos , ela ainda quis vê-lo.
Como diria Saint Exupèry: "É o tempo que perdemos com alguém
que torna esse alguém importante para a nossa vida"
Quanto a mim, tenho perdido tempo com certas pessoas...
mas o que realmente importa é que ao final de minha vida saberei que o meu tempo, embora perdido, foi precioso e o que é precioso, nunca está perdido.
Quando se planta uma flor, o mínimo que se pode fazer por ela é regá-la e quando se arranca uma flor de um jardim, o máximo que se pode fazer é guardá-la dentro de um livro, porque embora seca e sem perfume, ela eternamente nos contará uma história todas as vezes que abrirmos
esse livro, e não importa se for uma rosa, uma papoula,
uma margarida ou uma orquídea...
e em cada canto de um jardim em que uma flor morrer, outra nascerá, só vai depender do tempo que um jardineiro se dispuser a perder com ela.
Em cada palavra que escrevi, coloquei toda a emoção, em cada vírgula
meu sentimento, em cada parágrafo, minha dor, e na minha pausa, afoguei-me em lágrimas... mas tenham a certeza de algo: o tempo que "perdi" aqui...
foi PRECIOSO!


Silvana Duboc