O luto de cada um

Não sei se você, também, às vezes percebe isso: de repente,
um assunto qualquer que não costuma ser discutido,
invade a mídia, coincidentemente ou não.
Pois aconteceu de novo.
Na semana passada, li umas três matérias diferentes sobre o tempo que se leva pra " curar " um amor terminado. E em todas elas o diagnóstico era praticamente igual : de três a seis meses é o tempo considerado normal. Se depois de um ano de rompimento o sofrimento persistir, passa a ser patologia.
Se eu entendi bem, passados 180 dias de ausência daquele que a gente ama, o natural é que a gente comece a se interessar por
outras pessoas e deixe de sentir dor.
Em 180 dias, no máximo, você tem que chorar todas as suas
perdas e dar a volta por cima. Seis meses.
É o prazo limite, se você tiver uma cabeça saudável.
Li, compreendi, achei sensato e confortante, mas não serve
pra mim. Sou da raça das patológicas.
Nas poucas vezes em que vivi um trauma de amor,
eu extrapolei o prazo pelas matérias de revista.
Nunca me enfurnei em casa, nunca neguei o chamado da vida, fui
à luta e segui vivendo, mas a dor era companheira de jornada, eu curtia um luto branco, que não aparecia para os outros, mas era sagrado pra mim e durava o tempo que eu permitia.
Talvez fosse mais honesto dizer que até hoje sofro todas as minhas perdas. Isso parece doença porque a maioria das pessoas acha que sofrer significa encharcar travesseiros e fechar-se pra vida.
Sofrer e ser feliz não precisam ser incompatíveis.
No meu caso, não é.
Sou uma mulher privilegiada, trago as emoções e a cabeça
em ordem, mas não esqueço de nada nem de ninguém .
Eu me lembro de tudo.
Eu valorizo tudo.
Eu reverencio todos os meus grandes momentos partilhados.
Eu os reconheço como legítimos e insubstituíveis,
e os homenageio com minha saudade.
E ai de quem me disser que isso tem data pra acabar !

Martha Medeiros