O seu e nosso Hamilton

Não vi o Jornal Nacional na sexta-feira passada.
No sábado, pela manhã, no caderno Cidades, aqui do Estadão,
vejo a foto de um operário sentado no seu trator, chorando.
Não era uma reportagem, era uma pequena nota que dizia:
"O operador de máquina Hamilton dos Santos, de 53 anos, sob pressão do oficial da Justiça e da Polícia Militar, não conseguiu acionar a retro-escavadeira para demolir a casa de Ana Conceição, em Palestina, Salvador, e fazer a reintegração de posse. Diante da multidão clamando 'pare', silenciou, chorou, passou mal e foi preso pela PM por descumprir ordem judicial."
No mesmo sábado, no Jornal Nacional, uma longa matéria sobre o seu Hamilton dos Santos. Repito, dos Santos. E fiquei sabendo que, no dia anterior, a Globo já havia feito uma reportagem mostrando, inclusive, o mastodonte do oficial da Justiça prendê-lo em nome da lei. Em nome da lei. E ali, na tela da Globo, fui conhecendo um pouco mais do criminoso dos Santos. Tem nove filhos, o homem. A dona Ana, cuja casa ele deveria detonar, tem sete.
Portanto, diante daquela retro-escavadeira, 16 crianças brasileiras choravam.
Pensei no Fome Zero e na Casa Zero.
No mesmo dia, recebo pela internet, mandado pelo João Ubaldo Ribeiro, uma relação dos maiores devedores da Previdência. Devedores estes que ainda não receberam intimação de prisão e nunca receberão. Dê uma olhada na turma que anda nos devendo por aí: Transbrasil, R$ 780 milhões. Estado de Goiás, R$ 685 milhões. Encol, R$ 630 milhões. Varig, R$ 560 milhões. Vasp, R$ 476 milhões. Banco Itaú, R$ 380 milhões. Caixa Econômica Federal, R$ 360. Mendes Júnior,
R$ 355. Unibanco, R$ 321 milhões. E por aí vai, incluindo vários times de futebol.
Se eu não estou enganado, essas empresas recolheram dos funcionários
(como o seu Hamilton) e não repassaram ao governo.
O que devem, paga a dívida externa do Brasil e sobra.
E prenderam o seu Hamilton.
Simplesmente porque ele não quis passar o trator em cima de uma família inteira que, provavelmente, vem pagando os seus tributos direitinho.
A reforma da Previdência do governo Lula vai cobrar desses caras ou só dar ordens ao seu Hamilton?
É triste viver num país assim. O gesto humano não vale nada diante de uma Polícia Militar desqualificada e corrupta. E os nossos jornais impressos (ao contrário da Rede Globo) deram apenas uma notinha sobre o tratorista, numa página 6 do caderno C. Em páginas mais nobres, os balanços e os assombrosos lucros de empresas com as quais a gente sempre está se esbarrando.
Mas são os operários, os trabalhadores, que estão dando o exemplo do que
é ser brasileiro. Um deles na Presidência da República, o outro chorando
com o seu trator desligado.
Enquanto isso, o povo gritava: pare, pare, pare! Era a voz do povo
(embora a frase possa parecer meio festiva) dizendo pare!
A verdade é que pessoas como o seu Hamilton ainda me fazem
acreditar no meu País. E me orgulhar dele.

Arnaldo Jabor