Oração de Petrus
(no caminho de Santiago)

Em determinado momento de minha peregrinação, chegamos a um campo de trigo liso e monótono, que se estendia por todo o horizonte. A única coisa quebrando o tédio da paisagem era uma coluna medieval encimada por uma cruz, que marcava o caminho dos peregrinos.
Quando chegamos até ela, Petrus – o meu guia - largou a mochila
no chão e se ajoelhou, pedindo que eu fizesse o mesmo.
– Vamos rezar para que, caso você consiga encontrar a sua espada, segure-a sempre com a mão firme.
Petrus disse que admirava muito o poeta brasileiro Vinícius de Moraes, e que desejava fazer uma oração tendo como base a sua poesia.
Então começou:
- Tende piedade dos que têm piedade de si mesmos, e se acham bons e injustiçados pela vida, porque não mereciam as coisas que lhe aconteceram – pois estes jamais vão conseguir combater o Bom Combate.
E tende piedade dos que são cruéis consigo mesmos, e só vêem maldade nos próprios atos, e se consideram culpados pelas injustiças do mundo.
Porque estes não conhecem Tua lei que diz:
“até os fios de tua cabeça estão contados”.
“Tende piedade dos que mandam e dos que servem muitas horas de trabalho, e se sacrificam a troco de um domingo onde está tudo fechado e não existe lugar onde ir. Mas tende piedade dos que santificam sua obra e vão além dos limites de sua própria loucura, e terminam endividados ou pregados na cruz por seus próprios irmãos.
Porque estes não conheceram Tua lei que diz: “sede prudente como serpentes e simples como pombas”.
“Tende piedade dos que comem, e bebem, e se fartam, mas são infelizes e solitários em sua fartura. Mas tende mais piedade dos que jejuam, censuram, proibem e se sentem santos, e vão pregar Teu nome pelas praças. Porque estes não conhecem Tua lei que diz: “se eu testifico
a respeito de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro”.
“Tende piedade dos que temem a Morte e desconhecem os muitos reinos que caminharam e as muitas mortes que já morreram, e são infelizes porque pensam que tudo vai acabar um dia. Mas tende mais piedade dos que já conheceram suas muitas mortes, e hoje se julgam imortais, porque desconhecem Tua lei que diz: “quem não nascer de novo
não poderá ver o Reino de Deus”.
“Tende dos que não acreditam em nada, porque estes nunca vão ouvir a música das esferas. Mas tende mais piedade dos que possuem a fé cega, e nos laboratórios transformam mercúrio em ouro, e estão cercados de livros sobre os segredos do Tarot e o poder das pirâmides. Porque estes não conhecem Tua lei que diz: “é das crianças o reino dos céus”.
“Tende piedade dos que não vêem ninguém além de si mesmos, fechados em suas limousines, que se trancam em escritórios refrigerados no último andar, e sofrem em silêncio a solidão do poder. Mas tende piedade dos que abriram mão de tudo, e são caridosos, e procuram vencer o mal apenas com amor, porque estes desconhecem Tua lei que diz: “quem não tem espada, que venda sua capa e compre uma”.
“Tende piedade de nós, Senhor. Porque muitas vezes pensamos que estamos vestidos e estamos nus, pensamos que cometemos um crime e na verdade salvamos alguém. Não vos esqueceis, em vossa piedade, que desembainhamos a espada com a mão de um anjo e a mão de um demônio segurando no mesmo punho. Porque estamos no mundo, continuamos no mundo e precisamos de Ti. Precisamos sempre de Tua lei que diz: “quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, nada vos faltou”.
Petrus parou de rezar. O silêncio continuava.
Ele estava olhando fixo o campo de trigo a nossa volta.