Poço de Águas Turvas

Ao longo dos meses falei a ele palavras de puro amor,
mas ele não percebeu.
Se erros eu cometi, foram todos honestos, reações apenas
aos seus erros deliberados, mas ele não percebeu.
Suportei com paciência sua altivez, arrogância e frivolidade,
mas ele não percebeu.
Fui degrau para que ele atingisse maiores alturas,
mas ele não percebeu.
Fiz com que manifestasse sua melhor performance,
mas ele não percebeu.
Fui a sustentação para que ele realizasse velhos projetos,
mas ele não percebeu.
Avisei-lhe de seu ego distorcido e orgulho desmedido,
mas ele não percebeu.
Fui saindo da sua vida de mansinho,
mas ele não percebeu.
Seccionei os canais de amor e luz com os quais o nutria,
mas ele não percebeu.
Começou (o pobre) a definhar qual parasita apartado do tronco,
mas ele não percebeu.
Foi perdendo a força, o viço, o brilho,
mas ele não percebeu.
Começou a resvalar, tropeçar, cair,
mas ele não percebeu.
Hoje ele é nada. Talvez um mero poço de águas turvas.
Pressumo que ainda não percebeu,
mas levantá-lo desta vez?
Ah....! Não eu!

Fátima Irene Pinto