Proibida para menores

Cristina precisava rodar o trabalho da faculdade.
A maldita impressora sem tinta. Deixou como sempre para última hora. Domingo, vinte e duas horas, o trabalho para segunda às sete.
Vai zerar em penal, justamente onde está mal.
Liga para todos os conhecidos, mas parece que fizeram um complô contra ela. Não acha ninguém. Pronto, melou a semana santa em Porto Seguro, já era a sua chance de ficar com o Pedro.
E tinha investido grana na passagem, nas duas gangas transparentes, no biquini vermelho.
Desesperada, toma o elevador e vai procurar o Bil na portaria.
Bil (nickname, nome real Severino) é o porteiro, lavador de carros, entregador de compras, locutor da rádio tamanco que existe em todo prédio que se preze (reproduz tudo que ouve bem alto), profeta (avisa com antecedência o que vai acontecer), repentista (cantarola na hora um fato), cupido (avisou que o Marcelo, gato do 302, terminou com a namorada horrorosa), escudeiro (mente para os pais a hora da chegada dos filhos).
Ele sempre traz problemas e soluções.
O Bil bem que podia ser o presidente do Brasil.
Tem até nome.
— Bil!!! Quem tem impressora aqui no prédio
que eu pudesse usar agora?
— O pestinha do 401 tem computador e essa máquina aí.
— Não quero, o preço é alto demais. Ele vai ficar de onda,
é mal-educado pra caramba e chantagista.
Vai cobrar eternamente. Quem mais?
— Seu Renato do 801. Aquele coroa viúvo, sisudo. Aquele grisalho, pálido, que entra mudo e sai calado diariamente. Seco, sinistro.
Sei que ele tem, pois limpei vidraça lá e vi. Vai encarar essa?
Cris pensa rápido, tenta lembrar do cara, mas nada. Deve ser inexpressivo, igual a todos os coroas. Resolve arriscar. É tudo ou nada. Munida de uma enorme cara-de-pau, sobe e toca a campainha. Ninguém atende. Lá de dentro vem um som quente, dolente, um jazz certamente. Toca de novo, insistente, impaciente. A porta se abre e seu Renato parece ligeiramente espantado.
Está de bermuda, com um cachimbo nas mãos.
Cristina fica sem graça, se apresenta e pede o favor, consciente
de que está sendo inconveniente. Fala da urgência.
Seu Renato abre um sorriso de boas-vindas, diz para ela entrar, avisando onde está a impressora.
No fim do corredor à direita.
Ela atravessa o corredor espelhado que a leva ao escritório.
Impressão ou não, ela está impressionada com a expressão dela, quase esquecendo a impressão na impressora?!
É esta a fisionomia dela no espelho.
Seu Renato segue atrás munido de um copo (scotch?), cachimbo
e pergunta se ela precisa de ajuda, se quer que ele abaixe o som.
Cris diz que sim e não, ou melhor, sim para ajuda
e não para o som, e ele se aproxima.
Cheiro de cachimbo, misturado com uísque.
Eta mistura diabólica, que resulta em cheiro de macho.
E este jazz tocando, e esta luz fraca, e estes malditos hormônios
dos vinte anos que já não a fazem mais menina, mas que não
a definiram ainda mulher.
Nunca havia sentido isso com os “Pedrinhos”e “Marcelos” da vida. Que arrepio! Baixou Eletra nela? Seu Renato tem idade para
ser seu pai. E ela nunca se imaginou ninfeta.
Quer rodar logo e ir embora. Não, não quer ir não.
Quer Renato. Cadê o “seu” antes do Renato?
Sisudo?! Com estas coxas e este cheiro pode ser carrancudo, sinistro, arisco et cetera e tal, dá-lhe meu Renatinho.
Renato percebe a perturbação de Cris e elegantemente vai se afastando, avisando que estará na sala para qualquer emergência.
Ah! Impensado ato deste homem maduro. Quando ele demonstra com o corpo que não, ele deixa perceber nos olhos o sim.
A indefinição de mulher criança morre ali. Nasce a fêmea. Sorte do homem que tem a chance de fazer nascer a fêmea, quando tantos acham importante serem os primeiros. Desvirginar é ato cirúrgico. Dar à luz a fêmea é o momento glorioso do macho. Ver uma mulher ser mulher, vir com tudo. Com audácia, com vontade
de ser caça, com raça. A emergência acontece.
O trabalho? Ficou pronto as seis da matina.
Graças a Deus que o coroa do 801 entra mudo e sai calado,
senão o Bil ia ter histórias para um ano.
Histórias proibidas para menores de vinte e um!

Rosa Pena