Quem com ferro fere...

Elizângela não conseguia conter sua ira. Através da faxineira Zenaide, confirmara suas suspeitas: o marido, Tiago, tinha outra mulher
e uma filha cuja idade era a mesma de sua Aretha.
Não se conteve e foi atrás dele em uma das inúmeras lojas de cosméticos
que possuíam, espalhadas pela cidade.
No fundo, o casamento estagnara-se e apenas os negócios mantinham a união. Pura questão de comodismo.
No caminho, encontrara Tiago em um barzinho tomando chope com duas moças, vendedoras de lojas vizinhas.
Chama-o de lado e diz: - Quero a separação imediatamente!
Ele replica: - É outro homem?
- Você é tão merda que nem precisei de homem para te deixar - ela responde de modo que todos ouçam, explodindo com um tapa em seu rosto e retornando para casa sob o olhar atônito dos que presenciaram a cena.
Pelo caminho, ofegante e trêmula, foi se lembrando de quando
o conheceu: Tiago era vendedor inexperiente em uma das lojas de seu pai.
Foi amor à primeira vista. Começaram a namorar, noivaram e casaram em menos de seis meses. O pai não concordava muito com aquela pressa, mas fazia todas as vontades da filha. Logo, Tiago tornou-se gerente e em poucos anos era vice-presidente da empresa. Elizângela sabia que o amava bem mais que ele a ela; no entanto, tinha esperança em fazê-lo apaixonar-se.
Agora, com esta notícia-bomba de que ele sempre teve outra...
não via mais como manter o casamento.
Era pedir o divórcio já. Mas antes queria conhecer a outra
mulher e sua filhinha bastarda.
Zenaide dera todo o serviço e o endereço das profanas estava ali, na sua bolsa.
Estupefata, viu o prédio onde moravam.
O mais novo e sofisticado da Praia Azul. Bem perto do point dos surfistas.
Uma beleza! Tocou o interfone, identificou-se e o porteiro pediu que aguardasse na requintada portaria. Entrou e ficou esperando a chegada
da mulher. Fumou três cigarros, enquanto isso.
Por que ela demorava tanto? Seria medo?
Após exatamente meia hora, abre-se a porta do elevador e dele sai uma mulher digna de um Oscar em matéria de beleza. Corpo supersarado, bronzeada e com os cabelos salpicados de luzes. Coisa de estremecer!
Sentiu-se pequenina diante dela. Sim, sabia que era ela.
Ouve então a frase: “Elizângela, muito prazer, Marcelle.”
Ambas, aparentemente calmas, começam a dialogar.
Marcelle diz que o caso entre eles iniciara seis meses após o casamento de Tiago. Coincidência pura a gravidez no exato período. Nada planejado.
Conta que a filha estuda no Colégio Beira-Mar, conhecido como o mais caro do Estado, e tem atividades extracurriculares, como inglês, ginástica,
desenho, música, teatro...
Elizângela, então, sente um baque. Muito havia sido tirado de sua filha para aquela criança. Aretha apenas estudava inglês, pois não havia dinheiro suficiente para outras atividades.
Apesar das inúmeras lojas, não levavam uma vida tão fácil.
Que revolta sentia!
Depois de tudo ouvir, Elizângela diz a Marcelle que gostaria que ela ficasse com Tiago imediatamente. Mandaria sua bagagem logo ao chegar em casa, pois, lá, ele não dormiria nem mais uma noite. Aí o bizarro começou: Marcelle arregalou as sobrancelhas e falou: - De jeito-maneira! Detesto ser a esposa!
Fui e sempre serei somente amante! Pode despachá-lo para outro lugar, ou então arranje-lhe uma nova esposa. Quer acabar com a minha boa vida? Homem só trata bem amantes, querida.
Esposas são para o trabalho forçado! Bye, bye...
Virou as costas, entrou no elevador e deixou Elizângela,
estática e apalermada, no meio do saguão, sem ação...