Quem dera fosse apenas isso

De repente a gente se dá conta que o tempo passou
sem o menor constrangimento.
De repente a gente percebe que a vida está escorrendo por entre os dedos e parece que poucas gotas dela ainda estamos conseguindo segurar na palma da mão num malabarismo incessante.
Chega um momento que torna-se impossível driblar o tempo, enganar o espelho e ignorar a quantidade de espinhos que foram fincados no nosso coração fazendo, assim, com que ele tenha se tornado menos, bem menos resistente às adversidades.
Às vezes acho que o que envelhece primeiro é o coração e não o corpo. Para o corpo existem muitos recursos que podem ser explorados, mas o coração quando entra em decadência
dificilmente encontra o retorno.
Não existe cirurgia plástica, tratamentos dermatológicos,
academias para coração, uma pena...
Um dia o coração manda uma mensagem para o cérebro: Chega!
Acho que é nesse exato momento que o corpo começa a envelhecer.
Coração cansa de sofrer, de ser desconsiderado, destratado, ignorado.
Coração cansa, principalmente, de ser magoado.
Não me refiro apenas ao amor. É que quando fala-se de coração pensa-se imediatamente em amor ou decepção amorosa.
Coração abriga diversos outros tipos de sentimentos e sofrimentos, portanto, se desgasta minuto a minuto.
Coração um dia enruga, começa a ter dificuldade de sonhar,
de enxergar, de bater.
Coração é o espelho da alma e o reflexo do espírito,
é o começo de tudo e, também, o fim.
E ainda assim há quem pense que coração não passa de um órgão muscular, agente principal da circulação do sangue.
Quem dera fosse apenas isso.

Silvana Duboc