Sobre as dores

Eu sei que posso me salvar das dores que me sufocam,
sei que posso me curar dos lutos que me são impostos,
sei que preciso ter fibra para me reerguer
mas antes de tudo isso eu preciso ter
um período para em silêncio sofrer.
Não adianta fingir que somos fortes o tempo inteiro
pois a vida nos reserva sofrimentos verdadeiros
que não desaparecem por detrás de um sorriso forçado,
que não se desfazem se nosso coração for machucado.
Por mais que as pessoas se comovam com nossas tristezas
elas são apenas nossas e só para nós possuem grandeza.
Sofrer muitas vezes é necessário,
pois só após um sofrimento e um extenso calvário
ficamos prontos para recomeçar
e nossa vida novamente retomar.
Não se deve ficar colecionando dores,
acumulando-as dentro do coração
e imaginando que nossos temores
rapidamente terão solução.
Não!!!!
A dor precisa ser profundamente vivenciada,
precisa ser curtida e degustada
e de frente tem que ser encarada.
Mas como tudo na vida ela tem seu tempo,
tem sua duração e seu movimento,
portanto que seja respeitada e nunca rejeitada.
As dores que por nós são ignoradas
tendem a doer fisicamente
e transformam nosso corpo
num pedaço de carne doente.
Permita-se sofrer sem padecer,
aceite que em algumas épocas da sua vida
seu chão vai desaparecer ,
seu tapete será puxado,
seu coração ficará despedaçado
e a sua vida vai perder o sentido.
Acontece com você, acontece comigo,
acontece com todos que estão vivendo
e a vida parece que
sempre está nos devendo.
Parece que ela nos deve mais respeito,
milhões de dias mais perfeitos,
menos lágrimas e menos dores no peito.
Parece que ela nos deve mais amor,
mais calmaria e
menos instantes de horror.
Parece que ela deixa a desejar
e persiste em nos desencorajar.
Apesar de parecer que é assim
a vida não é um castigo ruim.
Ela não é um fardo
que precisa ser carregado,
não é um pesadelo que
nos surpreende acordados.
A vida tem fases,
estágios e estados
que precisam ser
compreendidos e respeitados.
O que seria dos dias de sol
se entre eles
não houvesse as noites escuras?
O que seria do rancor
se não existisse a ternura?
O que seria da dor
se não tivessem inventado a cura?

Silvana Duboc