Sonhado muito

Querida Roberta:
Você deve estar estranhando meu silêncio e pensando que eu talvez
tenha morrido ou, pior, esquecido você.
Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Continuo razoavelmente vivo e em vez de esquecê-la, não paro de pensar em você.
Só o que faço, desde o nosso jantar, é pensar em você.
Sim, o jantar, o fatídico jantar em que finalmente nos conhecemos.
Antes éramos apenas nomes numa tela de computador.
Eu "Sonhador", você "Bebeta".
A primeira coisa que você me perguntou foi "Com que sonha o Sonhador?" e eu respondi "Encontrar a mulher dos seus sonhos".
E você: "Serei eu?" E eu: "Me diga como você é." E você: "Me invente, me invente." E eu: "Você já se inventou, ou seu nome verdadeiro é mesmo Bebeta?" E você: "Claro que não.
Ou seu nome verdadeiro é Sonhador da Silva?"
Trocamos mensagens durante semanas, meses.
Eu insistia em conhecê-la pessoalmente e você resistia.
Em vez de sonhar com você eu perdia o sono pensando em como seria essa "Bebeta" que não queria se mostrar, e não queria ver como eu era. Seria feia?
Seria velha? Seria homem? Eu precisava conhecê-la.
Finalmente combinamos nos encontrar num lugar público em que haveria
muita gente, sem nada que nos identificasse um para o outro.
Um tentaria adivinhar quem era o outro só pela cara.
E você me reconheceu. A mulher mais bonita de todas as que estavam
ali bateu no meu ombro e disse "É você o Sonhador?", e era eu.
Mal pude dizer "Eu devo estar sonhando".
Depois fomos jantar, e só o que eu conseguia pensar era "Isto não pode
estar acontecendo comigo. Não pode ser verdade. Uma mulher dessas.
O que eu estou fazendo com uma mulher dessas?" Você talvez não tenha
notado o efeito que causava em mim, pobre de mim.
Foi simpática o tempo todo. Maravilhosa o tempo todo.
Me disse que seu nome era Roberta. E o meu? "Sonhador da Silva", respondi.
E depois: "Brincadeira..." e disse meu verdadeiro nome.
Você riu. Além de tudo, tinha os dentes perfeitos!
Foi quando eu decidi que era demais. Era demais. Entende? Você era a mulher
dos meus sonhos, e eu não sabia o que fazer com a mulher dos meus sonhos.
Aí o garçom perguntou se queríamos água mineral com ou sem gás
e respondemos ao mesmo tempo. Eu: "Com." Você: "Sem."
Você deve ter estranhado que o resto da nossa conversa foi sobre a minha teoria de que aquela era a divisão fundamental entre as pessoas: as que pediam água mineral com gás e os que pediam água mineral sem gás.
Eram as duas grandes tribos humanas, os do com e os do sem.
Você riu outra vez, com os mesmos dentes, até se dar conta de
que eu estava falando sério.
Tentou mudar de assunto, saber mais a meu respeito, contar mais a seu respeito, descobrir gostos comuns, talvez planejar um futuro em comum para nós dois.
Mas eu voltava ao tema, em pânico.
Era irreconciliável aquela divisão entre os com e os sem.
Podiam conviver por algum tempo numa mesma mesa ou numa mesma sociedade, mas fatalmente viria o grande cisma, e um dia a Humanidade seria obrigada a escolher o seu lado definitivo, sem entendimento possível. Não estava fora de questão que a última guerra mundial fosse entre os com e os sem.
Pedi licença para me retirar. Era melhor não começar nada que não
poderíamos terminar, pois nunca nos entenderíamos.
Entende, Bebeta? Era demais. Nos conhecermos daquele jeito,
nos encontrarmos daquele jeito, você ser perfeita, você não me rejeitar...
Tive que fugir. Não tente me encontrar. Estou mudando meu email.
Mas tenho sonhado muito com você, Bebeta. Sonhado muito.

Luis Fernando Veríssimo