Um minuto de silêncio

A Vovó ouviu um barulho de choro da sala de TV.
Naquele dia que amanhecera bonito, quase anunciando a chegada da Primavera, ninguém poderia esperar pelo o que estava acontecendo.
-O que aconteceu, meu bem?
A menina chorava diante da televisão. A imagem que surgia era aterradora: um prédio em Nova Iorque estava em chamas, e uma fumaça preta subia aos céus.
A Vovó parou, boquiaberta diante da imagem.
-O que aconteceu?
Aumentou o volume da TV, para confirmar o que já imaginava: os Estados Unidos da América estavam sendo atacados por terroristas, que lançaram aviões contra prédios civis e militares.
A menina chorava, imaginando as pessoas sob aquelas chamas.
-Vó?
A avó nem respondeu com o seu tradicional Oi?, de tão assombrada com as imagens que lhe chegavam aos olhos.
-Vó?
Deu um pulo.
-O que foi?
-O mundo vai acabar? Vai começar a Terceira Guerra Mundial?
-Espera um pouquinho, meu bem. Espera um pouquinho...
A avó começou a zapear a TV, procurando por mais informações, até tomar pé da situação.
-Vai cair um avião no Brasil também, Vovó?
A velha senhora sentou-se de forma mais confortável e tomou a sua primeira decisão sábia: desligou a TV. Respirou fundo, até sentir-se mais calma. A imagem do avião explodindo contra o prédio ainda martelava a sua cabeça.
-Sabe, querida, o mundo está passando por um momento muito difícil, por isso essas coisas acontecem.
-A guerra vai começar?
-Não, querida, não. Já há uma espécie de guerra... mas espera aí que eu vou tentar te explicar. Vou te contar uma historinha, tá bom?
-Tá bom.
-Tomou fôlego, tentando pensar rápido.
-Imagine um reino onde o Rei perdeu o controle das coisas. O Rei não consegue mais ser ouvido por seus súditos, ele fala e ninguém mais ouve.
Todos no reino começam a lutar, cada um por si. Como ninguém mais consegue enxergar ou ouvir a ordem que vem de cima, cada um declara as próprias leis. E a lei que se declara é que todos devem ganhar muito dinheiro, todos devem ficar muito ricos e cada um deve lutar por si e ignorar o Outro. Todo mundo começa a correr, correr muito, atrás de nada, atrás de bens e de comida. As pessoas começam a se dividir em quatro grupos: os obesos, que comem mais do que devem, os famintos, que passam muita necessidade porque os gordos comem sua comida, os fundamentalistas, que querem vingança, porque sentem muito ódio por tudo. Esses fanáticos começam a ensinar esse ódio e tentam bagunçar tudo o que esta aí: colocam vírus dentro de computadores só para tentar instalar o caos em aeroportos e hospitais; terroristas sequestram, prendem e tentam assustar as pessoas porque se sentem sem futuro, sem perspectivas. Fundamentalistas que explodem prédios, achando que isso vai mudar o mundo, pensando que só a ação radical pode mudar as coisas.
Finalmente, surge o quarto grupo, que é o pior de todos.
-Qual?
-O grupo dos Cínicos, os caras que se aproveitam das dificuldades dos gordos, dos magros, dos fundamentalistas, para ganhar dinheiro e poder, dinheiro e poder, dinheiro e poder.
-Por que as pessoas querem tanto ganhar dinheiro, Vovó? Para que precisam tanto mandar nas outras pessoas? Não consigo entender...
A Vovó deu um suspiro.
-Eu não consigo entender isso, também, minha querida...
-Mas, Vó, como vai acabar essas coisas do reino que não tem Rei?
-Acho que um belo dia, as pessoas começarão a procurar por uma nova orientação. Em vez de tentar explorar a Terra, passarão a cuidar dela como quem cuida de nossa própria Mãe. Os religiosos começarão a usar a religião para amar quem é diferente, não para odiar, soltar bombas ou chutar a imagem de santas.
Os cínicos começarão então a gritar: trabalhem, consumam ... Trabalhem, consumam ...mas ninguém dará mais ouvidos a eles. A pessoas estarão mais interessados em conhecer o vizinho do que comprar um novo forno de microondas. Elas irão parar de correr, pois a pressa estava levando todos para a morte e a doença. Os cínicos não conseguirão mais serem ouvidos, pois as pessoas estarão atentas ao que a própria alma está dizendo.
-E o que a alma, lá dentro, está dizendo?
-Está dizendo: Pare com essa loucura! Pare de correr para lugar nenhum!
E as pessoas pararão de correr.
-E o Rei?
-O Rei? O Rei sairá de onde estava, preso nas malhas da indiferença e da ganância. Quando se libertar, o Rei decretará uma lei, que todos deverão cumprir.
-Qual lei, Vovó?
A partir daquele dia, as pessoas deixarão de ser coisas, os cínicos estarão proibidos de explorá-las ou negociar vidas humanas... os fundamentalistas vão usar o seu ódio para costruir algo, em vez de apenas vomitarem sua raiva no colo do vizinho... os gordos vão comer menos, para sobrar mais para os magros. E o único Rei desse reino não estará no trono, mas dentro de todos nós, pois esse Rei é Deus, meu bem...
-Vó?
-Oi?
-Quanto tempo vai demorar para essas leis serem cumpridas?
A Vovó suspirou.
-Vai demorar ainda muitos anos para isso acontecer, minha querida...
Mas vai acontecer, pode confiar na Vovó.
Enquanto isso, o que podemos fazer é um minuto de silêncio, para rezarmos pelas pessoas que morreram, pelas famílias que perderam seus entes queridos e pelos líderes de nosso mundo, para que ouçam esse Minuto de Silêncio, e cuidem melhor de nosso querido planeta.
A menina rezou com todas as suas forças pelas pessoas e suas famílias.
A Vovó rezou por todos os netinhos e netinhas desse mundo.
Todos juntos silenciaram e pediram pela Paz.

Uma nota do autor
O dia 11/09/01 com certeza vai ficar gravado na história da Humanidade
como um dia de terror e de mudança do mundo.
Após o ataque terrorista contra as Twin Towers e o Pentágono nos EUA, assistimos chocados aos desdobramentos dos fatos e oramos pela capacidade dos líderes em compreender e empreender as melhores ações.
No dia seguinte ao ataque, a Sorria !!! enviou aos seus assinantes um texto de minha autoria, com duas personagens que já estão ficando conhecidas do público internauta, a Vovó e sua netinha.
A Vovó contava uma história sobre um Reino sem Rei.
A história de uma terra sem lei que ficara dividida em grupos como Gordos, Magros, Fundamentalistas e Cínicos, até que as pessoas voltam a se olhar, umas às outras, buscando a fraternidade perdida.
Recebi centenas de mensagens, algumas de brasileiros e latinos residentes em Nova Iorque, Nova Jersey e outros pontos da América do Norte e do Sul, e até de Portugal, relatando a intensa emoção e conforto que a pequena fábula da Vovó lhes emprestou em um momento de grande aflição.
Recebi também mensagens, em menor número, mas igualmente significativas, de pessoas que se sentiram pessoalmente atacadas pela fábula, julgando ser a mesma preconceituosa e mais uma forma de incitação de desprezo contra as pessoas portadoras de uma doença extremamente
grave e de difícil manejo, que é a Obesidade.
Outras poucas pessoas se queixaram de verem feridas sua sensibilidade religiosa, achando que as críticas da Vovó ao radicalismo e à intolerância religiosa fossem um ataque a esse ou aquele grupo religioso.
Apesar de ter ciência que qualquer mensagem tornada pública vai, necessariamente, suscitar nos leitores diferentes interpretações, muitas vezes díspares da leitura do próprio autor ou até diametralmente opostas, coisa que a Teoria da Comunicação explica maravilhosamente, acho correto
fazer uma consideração sobre esse texto, para que mais pessoas
não se sintam atacadas pelo mesmo.
Gordos: representam uma alegoria para o 1º Mundo voraz, que se alimenta, muitas vezes, da fraqueza e da miséria dos países pobres e emergentes;
Magros: representam pessoas que se acomodam e se vitimizam
com a própria miséria, nem sempre procurando por soluções
criativas à própria condição.
Fundamentalistas: representam qualquer pessoa que, independente
de sua cor, credo, ou nacionalidade, usa o nome de Deus ou seus
recursos intelectuais para destruir ou afastar as pessoas,
semeando o Caos e a Discórdia.
Cínicos: são aqueles que se aproveitam de toda essa situação...
Bem, ninguém enviou mensagem de alguma Associação de Cínicos defendendo a "classe" dos ataques da Vovó. Talvez isso seja o mais preocupante; todos acham que os Cínicos são os Outros, mas os Cínicos, na verdade, podemos ser cada um de nós.
Finalmente, peço desculpas aos que se sentiram pessoalmente atingidos.
Um abraço carinhoso a todos: Marco Antonio Spinelli.

Opinião da Equipe de Sorria!
Com respeito ao texto "Um Minuto de Silêncio" e agora também aos esclarecimentos do Dr. Marco A. Spinelli, gostaríamos de nos pronunciar para agregar nossa opinião. Queremos que todos tenham a certeza que em nenhum momento houve a intenção de menosprezar ou mesmo ser preconceituosos com relação aos termos usados no texto do Dr. Marco A. Spinelli aprovado e enviado por nós. É certo e claro que o acontecimento trágico que tem em sua pior face, a perda de tantas vidas humanas, não é em si um fato positivo, e não pretendemos levar ninguém a esta conclusão, porém, depois de passado alguns dias e termos a oportunidade de refletir sobre este assunto, chegamos à seguinte conclusão: Manifestamos nossa indignação e pesar, simbolizados pela alteração de nosso símbolo na página principal de nosso site, durante os sete dias que se seguiram ao atentado. Criamos um pensamento especial e levamos a mensagem do Dr. Marco Spinelli até nossa lista de amigos.
Agora é hora de manter o nosso compromisso de levar alegria e felicidade às pessoas que nos cercam, não nos escondendo da verdade, mas encarando-a de frente e acreditando na capacidade do ser humano modificar a trajetória da história. Lembramo-nos de uma mensagem, enviada no passado, chamada "Eco da Vida", e acreditamos que agora, mais do que nunca, é o momento de plantarmos esperança e amor no coração de cada pessoa a quem possamos tocar. Acreditamos firmemente que a partir da modificação, inicialmente da opinião e posteriormente da atitude de cada um de nós, construiremos um futuro muito diferente daquele que os noticiários nos apontam.
Quantas vezes já tivemos a oportunidade de provar momentos de grande felicidade interior, mesmo quando fora de nós, enxergamos o caos?
Gostaríamos de participar desta construção da felicidade interior de cada um de vocês, porque acreditamos que a partir dela cada um de nós se tornará um farol para este mundo conturbado e, na pior das hipóteses, estaremos consolando os que sofrem mais do que nós.