Vou falar de amor...

mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons.
O momento é ideal para falar de sacanagem.
Se dei a impressão de que o assunto será , ménages à trois,
sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludi-lo(a).
Pretendo, sim, falar das sacanagens que fizeram com a gente.
Fizeram a gente acreditar que o amor mesmo, amor pra valer,
só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não contaram pra nós que o amor é racionado nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, só é mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "2 em 1 ",
duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso funcionava.
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria,
poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que o casamento era obrigatório
e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre deve haver um chinelo velho para um pé torto.
Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existem mais cabeças tortas do que pés. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas,
são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas
menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples;
só é ruim quando feito sem vontade.
Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de
regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

Arnaldo Jabor